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Boas práticas e desafios para abastecimento de diesel nas propriedades rurais

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Por Joel Alves *

Reservatórios de aço, bobonas de plásticos, carretas rebocáveis, tonéis e depósitos industriais de acrílico com guarnição metálica. Essas são algumas opções utilizadas para armazenagem de diesel nas propriedades rurais. O que podemos considerar correto ou incorreto? O que é melhor: aço ou plástico? Fixo ou rebocável? É possível evitar a sedimentação de resíduos? E a contaminação pela umidade? Qual melhor opção? São questões complexas que ainda se acentuam em função da qualidade do produto e da logística de distribuição. Diante dessa situação é que o produtor rural se depara para suprir de combustível seu maquinário. Somam-se ainda as exigências legais de segurança definidas na NR-20 do Ministério do Trabalho. Que orientações podemos dar?

Iniciamos pela NR 20, a norma de segurança que estabelece requisitos mínimos para segurança e saúde dos trabalhadores contra os riscos inerentes a atividades com combustíveis inflamáveis. É uma norma bastante complexa e que abrange todos os procedimentos desde recebimento, armazenagem e abastecimento, classificados como procedimentos de inspeção, manutenção, análise e operação nas instalações. A classificação das instalações é feita conforme o volume de combustível armazenado. São três classes:

Classe I – até 5.000 m3
Classe II – até 50.000 m3
Classe III- acima de 50.000 m3

Alguns itens previstos da Norma:

20.8 Manutenção e Inspeção das Instalações

20.8.1 As instalações classes I, II e III para extração, produção, armazenamento, transferência, manuseio e manipulação de inflamáveis e líquidos combustíveis devem possuir plano de inspeção e manutenção devidamente documentado.

20.8.2 O plano de inspeção e manutenção deve abranger, no mínimo:

a) equipamentos, máquinas, tubulações e acessórios, instrumentos;
b) tipos de intervenção;
c) procedimentos de inspeção
e manutenção;
d) cronograma anual;
e) identificação dos responsáveis;
f) especialidade e capacitação do pessoal de inspeção e manutenção;
g) procedimentos específicos de segurança e saúde;
h) sistemas e equipamentos de proteção coletiva e individual.

20.8.3 Os planos devem ser periodicamente revisados e atualizados, considerando o previsto nas Normas Regulamentadoras, nas normas técnicas nacionais e, na ausência ou omissão destas, nas normas internacionais, nos manuais de inspeção, bem como nos manuais fornecidos pelos fabricantes.

20.8.3.1 Todos os manuais devem ser disponibilizados em língua portuguesa.

Quanto às instalações a Norma também faz algumas exigências:

20.12.5 Os tanques que armazenam líquidos inflamáveis e combustíveis devem possuir sistemas de contenção de vazamentos ou derramamentos, dimensionados e construídos de acordo com as normas técnicas nacionais.

20.12.5.1 No caso de bacias de contenção, é vedado o armazenamento de materiais, recipientes e similares em seu interior, exceto nas atividades de manutenção e inspeção.

20.13 Controle de fontes de ignição:

20.13.1 Todas as instalações elétricas e equipamentos elétricos fixos, móveis e portáteis, equipamentos de comunicação, ferramentas e similares utilizados em áreas classificadas, assim como os equipamentos de controle de descargas atmosféricas, devem estar em conformidade com a Norma Regulamentadora n.º 10.

Citamos apenas alguns itens para destacar o quanto a Norma detalha os procedimentos, entre itens e subitens são mais de 200 procedimentos. Observam-se ainda as Normas Técnicas citadas na NR-20 e que são expedidas pela Associação Brasileira de Normas Técnicas (ABNT). São Normas Brasileiras (NBR) que tratam dos procedimentos específicos para armazenamento de líquidos inflamáveis e combustíveis. Citamos algumas:

ABNT NBR 15428:2006 
Armazenamento de líquidos inflamáveis e combustíveis – Manutenção de unidade de abastecimento;

ABNT NBR 15456:2007 
Armazenamento de líquido inflamável e combustível – Construção e ensaios de unidade de abastecimento;

ABNT NBR 14606:2013 
Armazenamento de líquidos inflamáveis e combustíveis – Entrada em espaço confinado em tanques subterrâneos e em tanques de superfície.

Atualmente é comercializado um conjunto de plataforma, chamado de módulo de abastecimento, que consta de um tanque de armazenamento de combustível com a bacia de contenção. Também há o módulo de combustível completo, com tanque aéreo, bacia de contenção e kit com bomba para abastecimento. O proprietário escolhe, podendo fazer a contenção de seu tanque com base de alvenaria, desde que suporte a contenção de todo o líquido armazenado.

Ainda é importante destacar que todo pessoal envolvido na operação de recebimento, armazenagem e abastecimento deve participar de treinamento específico, sendo necessária a realização de reciclagens periódicas. Eis a lei! E a nossa realidade? Ainda estamos longe de atingir os requisitos determinados, embora tenhamos dados alguns passos nessa direção.


Enquanto isso, como fazer para que a armazenagem na propriedade não contamine mais o já combalido diesel? Filtragem e descontaminação. Mais serviços e tarefas – e custos! É possível eliminar toda umidade dos reservatórios? É praticamente impossível, principalmente nos climas úmidos, mas pode-se manter sob controle quantidades pequenas, que não acarretem problemas para o suprimento e demanda dos motores. Note bem, os motores diesel não toleram presença de água para seu correto funcionamento, porém, possuem dispositivos próprios de filtragem, desde que executadas as revisões periódicas recomendadas. Assim, alguma umidade ainda presente nos reservatórios deve ser eliminada no sistema de alimentação do motor. Alguns procedimentos básicos recomendados na operação de abastecimento:

  • Diariamente drenar a água dos tanques de armazenagem da propriedade, também repetir a operação antes de efetuar o abastecimento do maquinário.
  • Efetuar o abastecimento das máquinas no final do dia antes
    de recolher para o galpão, pois assim evita a sedimentação da umidade que adentrou pelo
    suspiro do tanque.
  • Também efetuar a drenagem do reservatório e/ou da linha de combustível da máquina.
  • Realizar as manutenções preventivas das máquinas conforme previsto, principalmente os filtros de combustíveis (limpeza e substituição).

Atenção: se for o caso, instalar mais um filtro na linha de alimentação do motor. Há no mercado de autopeças filtros com maior capacidade de filtragem recomendados pelos próprios fabricantes de motores diesel, bem como instalar (no caso de não haver no motor) um separador com sistema de drenagem. Atualmente, é possível encontrar no mercado separadores com drenagem automática.

Por fim, outro procedimento adotado por alguns produtores é adicionar nos reservatórios produtos aditivos químicos para melhoria do diesel. Esses produtos possuem duas propriedades: são emolientes dispersantes da umidade e biocidas. Assim, consegue-se evitar parcialmente a contaminação, pois elimina-se principalmente a presença por fungos e bactérias, que se multiplicam pela ação da umidade com o biodiesel.

Dentre as opções de instalações de tanque de abastecimento a mais adotada no momento é o tanque aéreo. Instalado acima do solo esse tipo de tanque pode ser considerado uma alternativa mais segura do que os tanques subterrâneos, já que permite um fácil acesso para inspeções de monitoramento contra vazamentos e corrosões. A facilidade de acesso também permite praticidade para a armazenagem, abastecimento e limpeza do tanque. Quanto ao material do tanque, além do aço, é possível encontrar tanques de polipropileno.

Filtragem e microfiltragem: é um recurso bastante recomendado em todas as etapas. Há no mercado empresas especializadas em prestar serviços de instalação e manutenção desses sistemas. Também pode ser executado tanto nos reservatórios de abastecimento como junto ao sistema de alimentação dos motores. Esse recurso vem sendo adotado por alguns há algum tempo. O que há de mais atual é a microfiltragem. Qual a diferença? A filtragem trabalha com retenção de partículas em torno de 8 a 10 micros ou como é mais conhecida “micras” (milésimos de milímetro), enquanto a microfiltragem é de 2 micros. A microfiltragem consegue até eliminar pequenas quantidades de umidade. 

Essas alternativas possuem custos significativos aplicados sobre um custo já elevado do produto, fato que leva muitos produtores a não implementarem essas medidas, pois, além da implantação, necessita de manutenção periódica, o que ainda soma custos na preventiva. Na verdade, deveríamos ter um diesel de melhor qualidade e com preço mais acessível. Muitos acham isso impossível. Respondo: é só deixar a saudável competição empresarial no setor de refino de petróleo chegar nesse país.  Por enquanto, ficamos no aguardo. Talvez tenhamos gratas surpresas no momento em que enveredamos para o final da segunda década desse milênio. O agro clama por um tratamento mais adequado ao porte e envergadura que ocupa na economia nacional e mundial. Demonstração de competência e capacidade de produção os produtores apresentam sistematicamente ano após anos, com repetidas super-safras.

Joel Sebastião Alves Instrutor de Operação e Manutenção de Máquinas e Implementos Agrícolas e Rodoviários .*

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