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Como realizar uma inspeção diária e correta

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Por Joel S. Alves *

A mecanização agrícola no Brasil parece estar acontecendo de forma um pouco atropelada, dada a urgente necessidade de ganhos de escala e de suprimento da falta de mão de obra no campo, entre outros fatores. Em consequência disso, uma medida fundamental para conter custos e prolongar a vida útil do maquinário vem sendo negligenciada: a inspeção diária e a realização de manutenções preventivas. Simples cuidados, observados no dia a dia, podem fazer a diferença.

O primeiro passo é orientar adequadamente e cobrar das equipes de operação a execução da inspeção diária, prevista inclusive nas normas regulamentadoras de segurança mantidas pelo Ministério do Trabalho, as NR 11, NR 12 e NR 31. As normas estabelecem que as fichas de inspeção, devidamente assinadas, devem ser arquivadas para situações de perícias em casos de acidentes. A verificação de certos itens pelo operador também faz parte dos cuidados com a sua segurança pessoal.

É verdade que a execução desse serviço exige algum tempo. Quanto? Cinco minutos ou pouco mais. E quanto se ganha? Uma clara resposta pode ser obtida junto a quem já teve de reformar um motor por falta de óleo ou líquido de arrefecimento, ou que substituiu conjuntos de transmissão ou freios por igual problema ou de filtros.

Quando dos treinamentos de equipes de operação, constantemente observo o quanto procedimentos básicos não são executados. Tratores com filtro de ar obstruídos, ou sem esse elemento, ou ainda tomadas de ar rompidas, deixando a passagem de ar direto para o motor – apenas para citar casos mais recorrentes. Óleos lubrificantes de motor, transmissão e redutores são custos operacionais tanto de manutenção quanto de horas indisponíveis da máquina. Por isso, não podem ser ignorados.

Procedimento ajuda a conter custos e a assegurar o bom funcionamento das máquinas

Indo direto ao ponto, vamos analisar quais itens devem ser inspecionados no dia a dia. Não existe um padrão único, pois depende da máquina ou do trator, bem como da marca e do modelo, mas podemos afirmar que alguns itens são básicos e no geral servem como referência, com pequenas variações. Como exemplo, podemos considerar o modelo de roteiro que consta na Ficha de Inspeção Diária a seguir.

Bateria
As condições em que se encontra a bateria devem ser sempre observadas pelo operador, pois é o componente responsável por fornecer corrente elétrica para o motor de partida, como é identificado. Ela é que dá início ao funcionamento do motor de combustão. Claro, existem outras formas de realizar a partida, a mais conhecida e utilizada no meio rural é “fazer pegar no tranco”, inclusive muitos usuários deixam o trator estacionado em uma rampa ou local com declive para facilitar esse procedimento. Vale lembrar que essa prática não é recomendada, pois pode causar danos à transmissão e ao próprio motor, sendo que muitas causas de quebra de anéis de segmento e até de mancal de virabrequim acabam acontecendo. Portanto, uma bateria em condições adequadas de funcionamento, com capacidade de armazenagem de carga elétrica e eletrólito em quantidade certa, é fundamental para uma partida plena do motor.

Outros itens relacionados diretamente são os cabos e as conexões do sistema de partida: devem estar firmes e, de preferência, protegidos das intempéries, pois as mudanças bruscas de temperaturas, associadas à umidade do ar, fatores bastantes comuns no meio rural, causam o surgimento de uma goma em volta dos contatos e conectores elétricos – conhecida como “zinabre” e que pode causar resistência ao circuito elétrico e até a sua interrupção, ocasionando falhas na partida ou fazendo o motor não funcionar. Destaca-se assim a importância da verificação diária desses dois itens iniciais.

Óleo hidráulico
Acrescenta-se ainda a presença cada vez maior nas máquinas de componentes eletrônicos, tanto no gerenciamento de dados quanto no controle e funcionamento do motor, sendo neste caso, a bateria componente indispensável, pois sem ela torna-se impossível o motor funcionar, não há  mínima possibilidade de fazer o tal “pegar no tranco”. A esse respeito já houve situações cômicas de operadores que permaneceram tentando fazer “pegar no tranco” por mais de uma hora, rebocando e deixando o trator correr ladeira a baixo, sem obter êxito e até executando outros procedimentos mecânicos no sistema de alimentação de combustível, tudo sem obter sucesso, pois o sistema eletrônico do módulo de injeção não estava alimentado com a energia necessária. Neste caso, a bateria, os cabos e as conexões, mais do que nunca, devem estar em perfeitas condições.

Óleo da transmissão
Cada vez mais se utiliza o recurso da força hidráulica nas máquinas agrícolas. E, por incrível que pareça, é uma ilustre desconhecida da imensa maioria dos operadores. Os sistemas hidráulicos são sistemas bastante simples de funcionamento e a principal exigência para que funcione corretamente é o óleo específico e em boas condições. Portanto, essa verificação diária é de fundamental importância para se obter o correto desempenho do sistema e plena vida útil. Existem duas formas para inspecioná-lo: através de uma vareta que fica mergulhada junto ao depósito, ou utilizando um visor de vidro ou acrílico transparente, em ambos há marcação do nível máximo e mínimo.

O conjunto da transmissão envolve vários componentes constituídos de eixos, engrenagens, redutores e dispositivos de acoplamentos, que necessitam de plena lubrificação. Para tal, os fabricantes optam por diferentes tipos de óleos que requerem verificação diária. Também, neste caso, há duas formas de executar a inspeção: por vareta (mais usual) ou de visor transparente, com as referidas marcações. Em tratores agrícolas ainda é muito comum a utilização do mesmo óleo da transmissão ser o hidráulico, sendo assim necessária apenas uma verificação para as duas funções.

Óleo do motor
O sistema de lubrificação do motor envolve vários componentes e peças internas que necessitam estarem cobertas de uma permanente película de óleo. O óleo, normalmente, está depositado na parte inferior do motor (chamada de carter), deve ser verificado diariamente antes da partida. A verificação também é feita através de uma vareta com marcação de níveis máximo e mínimo. É bom lembrar que a vida útil de um motor está relacionada diretamente a esse óleo, tanto quanto ao nível correto quanto em relação à especificação indicada pelo fabricante.

Tubulações de combustível e filtros
Trata-se de um item importantíssimo do ponto de vista de segurança, pois é um produto inflamável e que pode causar sérios danos às pessoas e ao meio ambiente. O principal a ser observado pelo operador é a presença de vazamentos, tanto nas tubulações quanto em conexões e filtros. Nos motores com ciclo diesel é necessária atenção especial às tubulações de alta pressão, situadas entre a bomba injetora e os bicos injetores, as quais devem estar fixadas corretamente e com as abraçadeiras antivibração em boas condições. A quantidade de combustível disponível no tanque também faz parte da inspeção, sendo que a recomendação é manter os tanques de combustíveis abastecidos de um dia para outro, para se evitar a condensação do ar úmido dentro dos tanques, o que causa sérios danos ao sistema de alimentação.

Filtro de ar do motor
O motor de combustão é grande consumidor de ar, pois a combustão só acontece com a presença do oxigênio, que vem da atmosfera. O ar necessita ser filtrado para que as impurezas não entrem para as partes internas do motor, causando desgaste prematuro das peças. Percebe-se também que esse filtro afeta a vida útil. O procedimento na inspeção diária deve ser feito conforme a recomendação do fabricante, pois existem várias formas para sua execução. Em alguns motores mais antigos esse item era lavável – hoje, na imensa maioria dos casos, é descartável e a máquina é provida de um sensor que informa as condições do filtro.

Líquido de arrefecimento do motor
O que se verifica na prática cotidiana, porém, é que os filtros descartáveis, em locais de muita poeira e umidade, acabam sendo obstruídos com muita facilidade, às vezes até em um dia ou menos de trabalho. Em função disso, os fabricantes vêm adotando vários recursos para realizar uma pré-filtragem, o que requer dos operadores a observância das recomendações previstas no manual da máquina. Há situações em que as equipes de manutenção recomendam a limpeza do filtro descartável – o cuidado que se deve ter nesse tipo de operação, executada pelo operador, é não usar sistemas de ar comprimido com pressão elevada. A recomendação é que seja empregado no máximo três kgf/cm2, ou seja, apenas pressão suficiente para soprar as impurezas retidas nas paredes do filtro. Vale lembrar: filtro obstruído significa combustão incompleta, portanto, perda de potência e aumento de poluição e consumo de combustível, e filtro sem capacidade de filtragem implica perda de vida útil do motor.

Esse é um item que está na causa de muitos problemas nas máquinas atuais, pois a imensa maioria dos operadores ainda associa tal líquido a água, e procedem a verificação com o acréscimo de água causando sérios danos ao sistema e ao motor. Os motores modernos não trabalham mais com água pura para o arrefecimento, e sim um fluído especial desenvolvido pelos fabricantes para que possibilite uma elasticidade maior na temperatura de funcionamento, tanto em baixas como em altas temperaturas. Os motores de combustão são máquinas térmicas, e como tal, necessitam de calor, e quanto mais calor mais rendimento, claro que há limitações dos materiais dos componentes, por isso, a importância do uso do líquido correto, que é o recomendado pelo fabricante.

Condições dos pneus
Deve-se verificar a pressão recomendada e o tipo de pneu, bem como as condições de uso necessitam ser observadas, pois qualquer incorreção, além de levar a perdas de desempenho, causam danos aos componentes da transmissão e até acidentes.

Eixo dianteiro
Principalmente nos tratores atuais esse eixo também é de tração e, como tal, deve ser inspecionado quanto a vazamento e lubrificação. Além do óleo lubrificante temos, neste caso, a presença de pontos que devem ser engraxados com equipamento correto. Nos eixos com tração há redutores finais junto ao cubo da rodas lubrificados com pequena quantidade de óleo – esse item nem sempre é contemplado na inspeção diária, pois a operação requer uma ferramenta para retirada de um tampão. No entanto, a falta de atenção dada a esse item tem sido um problema: já presenciei tratores trabalhando sem óleo nos redutores, e evidentemente, já apresentando folgas nos cubos.

Luzes e faróis
São itens de segurança que devem ser verificados, principalmente para uma eventualidade de trabalho noturno, situação frequente nos períodos safras, bem como o correto funcionamento do painel de instrumentos da máquina.

Sistema de freios
É o principal item de segurança e que, muitas vezes, é esquecido. Muitos acidentes acontecem por problemas de freios. O operador deve verificar constantemente seu funcionamento e, percebendo qualquer irregularidade, providenciar imediatamente a correção. A verificação consiste em detectar folgas no acionamento dos pedais e nos dispositivos do freio estacionário, bem como no teste com a máquina em deslocamento.

Mangueiras e conexões do sistema hidráulico
Nos tratores antigos esse item quase não existia, pois o sistema hidráulico era reduzido apenas para o dispositivo de três pontos. Porém, hoje é largamente utilizado em função de diversificação de implementos que se utilizam dos recursos da força hidráulica. Na verificação o operador deve estar atento à presença de vazamentos, tanto nas conexões e mangueiras quanto junto a cilindros e válvulas. Outro aspecto importante é a condição das mangueiras, pois a presença de rupturas indica possibilidade de rompimento completo, causando acidente e perdas operacionais

Sistema de direção
É outro item de segurança que deve ser verificado quanto à presença de folgas. Em relação à lubrificação dos pontos móveis, hoje em dia são utilizadas juntas esféricas blindadas. O operador deve verificar as condições das juntas, principalmente as guarnições (“borrachinhas”) de proteção, pois em função das condições climáticas há ressecamento e rupturas, facilitando a entrada de poeiras abrasivas e o consequente desgaste e folga no sistema. Atualmente, por ser um comando hidráulico, também deve ser verificado juntamente com a inspeção anterior.

Esses são alguns itens básicos que devem ser observados sistematicamente pelos operadores de máquinas e tratores. Em um primeiro momento parece muito, mas com a prática torna-se uma rápida rotina diária, e, mesmo que demande alguns minutos, o investimento representará muitas horas ganhas com o equipamento funcionando em condições adequadas.

Joel S. Alves é instrutor nas áreas de Operação e Manutenção de Máquinas e Implementos Agrícolas e Rodoviários *

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