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Cresce o número de mulheres especializadas em manutenção

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Sexo frágil é um adjetivo que não faz mais jus às mulheres. Elas vêm surpreendendo o mercado e estão conquistando posições que antes eram ocupadas apenas por homens, inclusive no campo. Por todo o País já é possível encontrar operadoras de máquinas agrícolas trabalhando nas lavouras de grãos, algodão e cana-de-açúcar. Outras vão além e também estão ganhando espaço nas oficinas mecânicas que fazem a manutenção corretiva e preventiva do maquinário.

Não há estatísticas que revelem quantas mulheres trabalham como mecânicas de máquinas agrícolas ou supervisoras desse tipo de serviço no País, mas elas começam a ser notadas em um universo que, até pouco tempo, era masculino. O Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial (Senai) mantém cursos de capacitação em todo o País. A cada ano, é maior o número de mulheres que se inscrevem no curso profissionalizante para aprender a fazer a manutenção de máquinas e equipamentos agrícolas.

O Curso de Aprendizagem Industrial – Mecânico de Manutenção de Máquinas Agrícolas e Veículos Pesados tem por objetivo proporcionar ao aprendiz formação inicial visando à qualificação que lhe permita atuar na manutenção preventiva e corretiva de veículos pesados, máquinas e sistemas agrícolas mecanizados.

formação ampla

Os alunos recebem informações sobre os sistemas elétricos, eletrônicos, de refrigeração, de suspensão, de direção, hidráulicos, além de sistemas de injeção, motores de combustão interna e sistemas mecanizados de plantio e colheita, entre outros, para ter condições de fazer a manutenção das máquinas, contribuindo, assim, para o aumento da produtividade.

O Serviço Nacional de Aprendizagem Rural (Senar) também promove cursos para qualificar os trabalhadores rurais. No Rio Grande do Sul, por exemplo, a entidade oferece cursos de regulagem e manutenção de colheitadeiras, tratores agrícolas e pulverizadores, além de oficinas sobre implementos para cultivo de arroz irrigado, uma das culturas mais plantadas no Estado. Um número cada vez maior de mulheres se inscreve para os cursos de mecanização agrícola no Senar do Mato Grosso.

Há três anos, a carência de mulheres capacitadas nessa área na região Centro-Oeste levou a Secretaria de Políticas para as Mulheres da Presidência da República a assinar um acordo para realizar cursos para mulheres sobre mecânica e operação de máquinas agrícolas. O convênio foi feito com a Superintendência do Desenvolvimento do Centro-Oeste, do Ministério da Integração Nacional, e o Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação, e beneficiou mulheres em situação de vulnerabilidade social. A iniciativa exigiu investimento de R$ 2 milhões, mas ainda não saiu do papel.

Mas quem não pode esperar pelas ações do governo tem que correr atrás. Foi o que fez a mecânica de máquinas agrícolas Ana Kelly Viudes, que há cerca de um ano integra a equipe de mecânicos da Agritex Comercial Agrícola, concessionária que atua no município de Querência (MT). Alguns clientes ainda estranham a presença de uma mulher em um reduto até pouco tempo considerado masculino. Toda suja de graxa dos motores que conserta, Ana Kelly, 38 anos, enfrenta a desconfiança com dedicação e bom humor. Um deles perguntou o que ela estava fazendo ali e outro questionou se ela trabalhava como vendedora de peças. “Eles ficam por perto para acompanhar o serviço, mas quando veem o resultado do trabalho percebem que o serviço pode ser feito tanto por homens quanto por mulheres”, argumenta.

Ana Kelly teve de superar a barreira do preconceito para se tornar mecânica de máquinas agrícolas. Há cerca de oito anos, procurou uma empresa de máquinas agrícolas em Sinop (MT) interessada em fazer um curso de mecanização. Ouviu de um empregado que aquilo não era coisa de mulher, mas um outro funcionário da mesma firma escutou a conversa e recomendou que ela tentasse um curso particular.

Determinada, matriculou-se em cursos básicos de mecânica hidráulica e mecânica elétrica e pagou as mensalidades com o dinheiro que recebia como diarista. Poucos dias depois de concluir o curso estava empregada em uma fazenda, trabalhando como operadora de colheitadeira. Foram seis anos operando máquina agrícola e outros dois com equipamentos de terraplanagem. Ana Kelly também chegou a fazer um curso de piloto privado e está habilitada para pilotar aviões, mas gosta mesmo é de mexer com motores.

Apoio fundamental

A aparência delicada da mecânica contrasta com o esforço físico que a profissão exige, mas Ana Kelly tem conquistado a confiança dos clientes e a admiração dos colegas de trabalho. Em todo o País, cerca de 120 mulheres trabalham na área de pós-venda da rede Case IH, sendo que dez delas diretamente nas oficinas. Além de enfrentar o duro dia a dia, elas também dão conta do recado quando precisam se deslocar para fazer a manutenção dos equipamentos em campo.

A mecânica diz ter paixão por mexer em colheitadeiras, tratores e pulverizadores, mas a máquina que mais gosta de consertar é o pulverizador. “Tenho paixão pelo que faço e muita curiosidade por motores”, declara a mecânica, que trabalha com um macacão e usa luvas de proteção, mas não abre mão dos cuidados com a aparência. “Estou sempre com o cabelo bem cuidado, de maquiagem e de batom. A gente não pode perder a feminilidade”, brinca a mecânica, que está no segundo casamento e tem quatro filhos. “O apoio da família fez com que eu conseguisse chegar aonde estou”, diz ela.

Além da preocupação constante com o desenvolvimento técnico, o diretor da Agritex, Gerson Garbuio, já percebeu que outras características da funcionária podem estar fazendo a diferença no trabalho na oficina. “Geralmente, as mulheres são mais cuidadosas com as ferramentas e com o manuseio das peças, e o cliente repara nisso”, destaca.

A jovem Fabiana Vaz da Silva, 32, também teve de superar muitos obstáculos. Há cerca de um ano e meio ela trabalha como mecânica na Terra Verde, em Jaú, no interior paulista. Ela estava desempregada quando decidiu fazer o curso de mecânica no Senai. Antes mesmo de receber o diploma, foi chamada para fazer uma entrevista na fabricante norte-americana John Deere e foi contratada. “Eu nunca tinha feito nada nessa área e não tenho nenhum amigo ou parente que lida com mecânica de máquinas agrícolas. Antes, eu trabalhava com calçados em Jaú”, conta.

O começo na oficina, porém, não foi tão fácil. Única mulher no local de trabalho, ela enfrentava resistências de alguns colegas, que a deixavam de lado. Mas não esmoreceu diante das dificuldades. “Eu comecei a gostar daquilo e terminei o curso. Nunca tinha imaginado que faria algo assim, porque é difícil para uma mulher trabalhar em uma área dominada pelos homens, mas é o que eu amo fazer”, afirma.

Na liderança

Fabiana é apoiada pelo marido e pelos dois filhos. “Sem o suporte da família não seria possível”, diz ela. A mecânica conserta tratores e pulverizadores, mas gosta especialmente de trabalhar com as colhedoras de cana-de-açúcar. “Eu também mexo com tratores, mas adoro consertar as colhedoras”, revela.

Há três anos, Solange de Jesus Santana, 27, trabalha como supervisora de serviços da Triama Norte, na cidade mineira de Montes Claros. A jovem não precisa se sujar com graxa, mas não arreda o pé da oficina para acompanhar o trabalho dos mecânicos. Ela conta que teve o apoio dos colegas e o trabalho vem dando bons resultados, com o reconhecimento dos clientes. “Conseguimos aumentar as vendas em 12%”, comemora. Mas não pense que a chefe não exige resultados dos empregados. “Temos reuniões semanais e eles são cobrados”, brinca.

Antes, Solange trabalhava como vendedora de material de segurança. “Foi uma mudança de 360 graus, um trabalho muito diferente daquele que eu fazia”, diz. A supervisora de serviços é grata a um colega que a ensinou pacientemente como o trabalho deveria ser feito. “A pessoa que me passou o serviço era muito boa. O treinamento foi fundamental”, ressalta.

A também supervisora de serviços Carla Andréia Gouveia Alves Cardoso, 34, completou recentemente 16 meses na unidade de Janaúba (MG) da Triama Norte. “Gosto muito do meu trabalho, é muito prazeroso”, destaca. Carla lembra que no início os clientes estranhavam quando eram encaminhados a ela. Alguns desconfiavam sobre sua capacidade. “Eles achavam que eu não ia dar conta. Mas, aos poucos, fui mostrando meu talento e conquistando os clientes”, brinca a supervisora. 

Gustavo Paes

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