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Custo da falta de manutenção preventiva no momento certo

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Por Joel S. Alves *

Muitos cálculos e teorias já foram experimentados tentando-se definir o custo de uma correta manutenção do maquinário agrícola. Manuais de administração financeira e trabalhos de conclusão de curso voltados ao agronegócio estão repletos de orientações sobre o tema, porém, ainda é acentuada a distância entre teoria e prática. Todos sabem que há um custo, o problema é defini-lo com exatidão. E ainda há mais: quando os valores não são considerados e, sobretudo, quando a manutenção não é realizada, os custos aparecem e aumentam exponencialmente.

Dada a dificuldade exposta, buscaremos mensurar o custo de não fazer a manutenção, considerando a prática recomendada e o que acontece quando ela é ignorada. Adotemos como referência um trator agrícola médio, de 140cv. Analisemos alguns itens de manutenção preventiva, conforme segue:

Motor – Troca do óleo lubrificante e filtro, substituição dos filtros de combustível, verificação e limpeza do filtro de ar, condições e limpeza do sistema de arrefecimento.
– Transmissão – Verificação do óleo do conjunto, condições do sistema de embreagem, verificação do óleo dos redutores, limpeza dos suspiros.
– Sistema hidráulico – Verificação do óleo, limpeza das hastes dos cilindros, ajustes do dispositivo de três pontos.

Intervenções no motor
A troca do óleo lubrificante e do filtro de um motor diesel de 140cv equivale a cerca de R$400. Ao não fazer a troca ou adiá-la depois de muitas horas de funcionamento, o que pode acontecer? Antes disso, vejamos: o óleo lubrificante é contaminado pelos resíduos após a queima da mistura inflamável. Nesse caso, portanto, sofre influência das condições em que a combustão é realizada, como motor frio ou superaquecido, qualidade do combustível, condições do ar e do local onde a máquina está operando, além das condições dos componentes dos sistemas de alimentação de combustível e ar. Muitas variáveis influenciam a qualidade da combustão, gerando maior ou menor quantidade de resíduos. O refugo é absorvido pelo lubrificante (quanto melhor sua qualidade melhor a absorção). Porém, em determinado momento o lubrificante fica saturado, exigindo substituição de óleo e filtro.

Quando a troca não é realizada, os resíduos se acumulam, gerando impactos negativos. Primeiramente, nas caneletas dos pistões, onde estão os anéis de segmento (de compressão e de lubrificação). Problema: dificuldade na lubrificação dos cilindros do motor, ocasionando desgaste prematuro. À medida que os resíduos aumentam, pode ocorrer até travamento dos anéis e acentuar desgastes, com perda de potência, maior consumo e mais aumento de resíduos, criando um efeito cascata.

Outro local que acumula resíduos é a cabeça dos pistões, fazendo surgir uma crosta de carvão que reage com o material de fabricação do pistão, modificando a sua configuração e o seu formato. Quando atinge valores elevados pode alterar a relação de compressão do motor, ocasionando vibrações e até rupturas e trincas de peças. O acúmulo de resíduos também atinge válvulas e suas sedes, chegando o travamento de válvulas ou a incorreta vedação, fazendo com o motor perca potência.

Outros problemas podem acontecer em decorrência de o óleo não apresentar mais a característica de lubrificação, atingindo os mancais de virabrequim e das bielas, fazendo os custos dispararem.

Para fazer a conta corretamente, todas as possibilidades devem ser consideradas. Assim, torna-se fácil perceber a diferença de custos. Por exemplo: troca de anéis, brunimento dos cilindros, serviços de válvulas e cabeçote – é o que as oficinas chamam de “fazer a parte de cima do motor”. Em cifras, deve situar-se acima de dez vezes mais que a troca de óleo e filtro. Isso se o proprietário dispuser de local próprio e funcionário para auxiliar.

O cálculo também depende da marca e do modelo do trator e da disponibilidade de peças. A conta pode ficar maior se for necessária a reforma completa do motor, o que pode acontecer se as intervenções preventivas forem ignoradas.

Manutenção dos filtros de combustível e de ar. Quanto custa? Esse item varia muito conforme marca e modelo. Pela média, o valor é de R$300. É um serviço que requer pessoal treinado, pois o sistema de alimentação de combustível não tolera ar em tubulações e conexões. Ao substituir filtros é necessário cautela e conhecimento para não deixar dispositivos com entrada de ar adicional. A limpeza ou substituição do filtro de ar também demanda procedimentos adequados para evitar entrada de sujeiras e contaminantes externos.

Ar e combustível formam a essência da combustão. Quando contaminados, desencadeiam combustão de péssima qualidade, muitos resíduos e pouca energia térmica, ou seja, motor menos potência. E o mais grave: problemas nos elementos mecânicos da bomba e bicos injetores, componentes que trabalham com ajustes de milésimos de milímetros.

No tocante ao filtro de ar, é importante destacar que resíduos decorrentes de poeiras são altamente abrasivos e geram desgastes prematuros nos cilindros do motor. Quanto custa não reparar tais itens? Serviços de bomba e bicos injetores são altamente especializados e necessitam de bancadas de testes e pessoal com qualificação, além de as peças de reposição terem preços elevados. É um serviço complicado de quantificar, pois varia muito de região,  mas, no mínimo, R$2 mil. Comparados com os R$300 da preventiva, vai uma boa diferença!


Sistema de arrefecimento: limpeza e verificação das condições. A intervenção deve ser feita com periodicidade curta e regularmente, porém apresenta baixo custo, pois requer apenas tempo do funcionário (o mesmo da operação, mas treinado). O importante é realizá-la, para evitar surpresas. Quais? Superaquecimento do motor e até queima de juntas e problemas no cabeçote, podendo chegar a um processo de fundição.

Também podem ocorrer danos ao radiador, mangueiras, válvula termostática, excesso de contaminação do líquido de arrefecimento, com perdas de rendimento e parada do motor. Quantificando apenas os serviços e peças do sistema (válvulas, mangueiras e líquido de arrefecimento) chegamos a algo em torno de R$300. Com a preventiva esse custo seria evitado! Agora, acrescentemos os custos de problemas maiores no caso de superaquecimento, que provavelmente passam de R$1 mil.

A diferença entre manter ou não o motor em dia é de milhares de reais. Do ponto de vista financeiro o que é melhor: fazer ou não? Sinceramente, não consigo entender quando alguém opta por não fazer.

Sistema de transmissão
O conjunto da transmissão envolve os componentes desde o motor até as rodas e a tomada de força. São conjuntos mecânicos compostos por eixos, engrenagens, rolamentos e dispositivos de acoplamentos. A essência da manutenção desses componentes chama-se lubrificação. Óleo e filtro do sistema formam a manutenção principal. Custo: R$500, no caso de um trator médio, incluindo troca de óleo dos redutores e limpeza dos suspiros.

Se o procedimento for ignorado, o desgaste de componentes é o primeiro efeito, embora não imediato, pois são peças resistentes e que suportam condições de pouca lubrificação, mas desgastes e folgas levarão a rupturas e a consequente falha de funcionamento.

Entre os itens críticos estão os redutores de cubos de rodas, que trabalham com esforço torcional elevado e pequena quantia de lubrificante. O período de troca neste caso é menor.

Ainda assim, nos defrontamos frequentemente com serviços não executados e folgas e ruídos aumentando… E ouvimos: “vai tocando, enquanto dá. Se quebrar a gente vê o que faz”. Máquina parada no meio da lavoura é prejuízo certo. Quanto vai sair esse estrago? Tudo depende de onde quebrou. Foi no redutor de cubo? Ainda bem, pois é mais rápido e pode ser feito no local. Foi na caixa de marchas ou no diferencial? Aí é problema graúdo. O custo é quantas vezes maior do que a simples troca de óleo e filtro? Vai longe. Lá se vai uma parte grande da safra…

Sistema de hidráulico
Sistema hidráulico e dispositivo de três pontos: lubrificação dos pontos com graxas, verificação das regulagens e ajustes de folgas nos braços e tirantes do acoplamento, óleo e filtro do sistema. É um custo baixo, mas que demanda tempo. Em muitos casos, o próprio operador pode executar, desde que treinado e com ferramental e material – e, claro, tempo para executar os serviços, que é um custo. Quando não é feito? Desgaste prematuro no dispositivo de acoplamento, podendo acarretar quebra ou rupturas, levando a substituição de peças. Qual valor? Às vezes, é possível recondicionar com custo baixo, mas, no caso de substituição, o custo não fica abaixo de R$300, isso se não afetar a haste do cilindro hidráulico.

Encerrando a conta: é fácil perceber a diferença de quanto custa fazer ou não fazer a manutenção do maquinário. Vão alguns milhares de reais em perdas. É preciso planejar para executar os serviços de forma correta e racionalizando as operações. Fazer ou não fazer? Não é apenas uma questão. E sim uma opção de planejamento estratégico do administrador rural, focado nos resultados com preservação do maquinário e sustentabilidade da propriedade e do negócio.

Joel S. Alves é instrutor de operação e manutenção de máquinas e implementos agrícolas e rodoviários. *

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