
O algodão agroecológico produzido no Semiárido brasileiro reúne características valorizadas pelo mercado internacional, movimenta a agricultura familiar e já apresenta experiências concretas de integração entre produtores e indústria. O desafio agora é transformar esse potencial em escala sem perder as características ambientais, sociais e produtivas que diferenciam essa fibra. O tema esteve no centro do workshop “Produção de algodão em bases agroecológicas”, realizado nesta quinta-feira (24), durante o 15º Congresso Brasileiro do Algodão (CBA), no Expominas, em Belo Horizonte (MG).
Integrante da programação de Gestão Ambiental e Social, a atividade reuniu diferentes elos da cadeia para discutir o cenário internacional das fibras sustentáveis, os avanços tecnológicos alcançados no Semiárido, a experiência de integração da produção à indústria no Ceará e os impactos econômicos, sociais e ambientais observados no Rio Grande do Norte.
O encontro foi moderado por Adriana Gregolin, coordenadora regional de projetos da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO), e contou com a participação de Silvio Moraes, Senior Engagement Manager para América Latina da Textile Exchange; Marenilson Batista da Silva, pesquisador da Embrapa Algodão; Wanderley Magalhães, coordenador do Desenvolvimento da Agricultura Familiar da Secretaria do Desenvolvimento Agrário do Ceará; e Renata Fonseca, gerente do Instituto Riachuelo.
Adriana destacou que um dos desafios é justamente ampliar a visibilidade de um tema ainda menos presente nas discussões, mas que ganha relevância diante das mudanças climáticas. A proposta do workshop foi colocar em contato diferentes “fios” dessa cadeia — campo, indústria, marcas, pesquisa, extensão, poder público, estudantes e sociedade.
Mercado busca fibras com atributos de sustentabilidade
A dimensão internacional foi apresentada por Silvio Moraes. Segundo ele, a transformação ambiental da indústria têxtil precisa começar na origem das matérias-primas. Dados apresentados durante o workshop apontaram uma produção global de aproximadamente 137 milhões de toneladas de fibras e materiais destinados à indústria têxtil em 2024. As fibras sintéticas representam a maior parcela desse volume, enquanto o algodão responde por aproximadamente 18% a 19%.
Dentro do algodão, entretanto, há um movimento de expansão dos padrões associados à sustentabilidade. Segundo Moraes, 37% do algodão que chega atualmente à indústria possui algum tipo de certificação ou protocolo que incorpora critérios de sustentabilidade.
Esse percentual vem aumentando, mas a discussão internacional avança também para atributos regenerativos, como saúde do solo, biodiversidade, conservação dos recursos naturais e impactos positivos sobre as comunidades envolvidas na produção. O algodão orgânico ocupa uma posição particular nesse mercado. “O algodão orgânico é algo que a indústria sempre desejou. E essa produção existe e vem crescendo, mas não no ritmo esperado”, afirmou.
Segundo os dados apresentados, a produção global certificada de algodão orgânico permanece há alguns anos na faixa de aproximadamente 700 mil toneladas anuais, apesar do potencial de expansão.
Na América Latina, Moraes destacou o crescimento do Peru e apontou que o Brasil também reúne características capazes de diferenciar sua produção. Além da qualidade da fibra, o algodão agroecológico brasileiro está relacionado à agricultura familiar, a práticas regenerativas, à recuperação de áreas e a sistemas participativos de garantia da produção orgânica.
A produção certificada representa apenas uma parcela desse universo, já que existem iniciativas conduzidas em bases agroecológicas que não entram nas estatísticas de algodão orgânico certificado.
Para Moraes, o conjunto dessas características representa uma oportunidade ainda pouco explorada. A mensagem apresentada foi de que há demanda internacional pela fibra, mas atender esse mercado passa por tornar a cadeia mais competitiva e profissionalizada e, ao mesmo tempo, garantir que a atividade represente uma alternativa efetiva de renda para as famílias produtoras.
Tecnologia adaptada à realidade do Semiárido
A construção dessa cadeia precisa considerar características bastante diferentes daquelas encontradas nas grandes regiões produtoras do Cerrado. Marenilson Batista da Silva apresentou o contexto do Semiárido, onde a precipitação média em determinadas áreas fica na faixa de 400 a 500 milímetros durante o período chuvoso, muito abaixo dos volumes encontrados nas regiões de Cerrado produtoras de algodão.
Historicamente, o algodão teve papel importante como cultura de renda para as famílias do Semiárido. Esse cenário mudou a partir da década de 1980, com a chegada do bicudo e outras transformações econômicas e produtivas, como o avanço das fibras sintéticas e as mudanças no mercado brasileiro nos anos seguintes.
A região perdeu, assim, uma de suas principais culturas geradoras de renda. A retomada do algodão ocorreu acompanhada de pesquisa e do desenvolvimento de sistemas adaptados à nova realidade. “O que nós produzimos hoje no Semiárido é ouro. Imaginem produzir algodão sem pulverização. Isso é graças a muito conhecimento e muita tecnologia”, afirmou Marenilson.
Para o pesquisador, tecnologia nesse contexto não significa necessariamente utilizar equipamentos sofisticados. Ela precisa ser capaz de responder às condições do território e permitir uma produção sustentável do ponto de vista econômico, ambiental e social.
Uma das estratégias é integrar o algodão a consórcios agroalimentares, com culturas como feijão, milho e outras espécies. Dessa forma, uma mesma área pode gerar fibra, alimentos e recursos que também dialogam com a criação animal, importante atividade das famílias durante os períodos mais secos do ano.
Conhecimento precisa chegar ao agricultor
Entre os avanços apresentados por Marenilson está a Unidade de Aprendizagem e Pesquisa Participativa (UAP), metodologia desenvolvida para aproximar pesquisa, assistência técnica e realidade dos agricultores.
A proposta é testar e adaptar tecnologias dentro das condições efetivamente encontradas nas propriedades, reduzindo a distância entre o conhecimento produzido pelas instituições e sua utilização no campo. “Nem sempre uma tecnologia serve para você ou serve para mim. Ela precisa ter um processo de adaptação”, explicou.
Esse princípio também aparece no controle do bicudo, ainda considerado um dos principais desafios da produção agroecológica de algodão no Semiárido. Entre as estratégias utilizadas estão armadilhas e a eliminação das plantas de algodão antes da safra seguinte. Nos programas apresentados, os agricultores precisam eliminar as plantas de algodão com antecedência de aproximadamente 90 dias, reduzindo a permanência da praga entre os ciclos.
A certificação orgânica participativa e a valorização comercial da fibra foram apontadas como outros avanços da cadeia. O desafio seguinte é justamente ampliar a produção. “Escalar a produção é um desafio que eu posso dizer, sem medo de errar, que é muito grande”, afirmou Marenilson.
Segundo ele, a expansão não pode ocorrer de um ano para outro seguindo a mesma lógica das grandes áreas do Cerrado. É necessário ampliar gradualmente o número de agricultores, garantir conhecimento sobre o sistema produtivo e, principalmente, assegurar mercado para uma fibra diferenciada.
Logística e beneficiamento aparecem entre os gargalos. A distância entre as propriedades, unidades de processamento e compradores pode aumentar custos e dificultar a organização da cadeia.
Ceará projeta 600 toneladas em 2026
A experiência do Ceará mostra como a articulação entre diferentes instituições pode contribuir para essa expansão. Wanderley Magalhães apresentou o modelo desenvolvido no estado, que reúne governo, universidades, prefeituras, instituições de assistência técnica, organizações da agricultura familiar e indústria. Entre as ações estão a distribuição de sementes, disponibilização de insumos, preparação de áreas, assistência técnica, controle fitossanitário e apoio à logística e comercialização.
Para 2026, o programa trabalha com aproximadamente 800 hectares plantados e expectativa de colher cerca de 600 toneladas de algodão em rama. O sistema utiliza consórcios com culturas como feijão-caupi, milho e gergelim, estratégia relacionada à segurança alimentar, ciclagem de nutrientes, equilíbrio do agroecossistema e maior resiliência às condições climáticas.
Na transição agroecológica, o programa também utiliza biodefensivos. Entre os insumos citados durante a apresentação estiveram Bacillus thuringiensis, Beauveria bassiana e Metarhizium anisopliae.
Outro eixo é a mecanização adaptada à agricultura familiar, com capacitações e utilização de equipamentos de menor porte, além das Unidades de Aprendizagem e Pesquisa Participativa. Ensaios realizados no estado também vêm avaliando novos materiais de algodão. Em uma das experiências apresentadas, linhagens testadas alcançaram resultados próximos de 47% de fibra, mesmo diante de condições climáticas adversas durante parte do desenvolvimento.
Garantia de compra aproxima agricultor da indústria
A comercialização é uma das peças centrais do modelo apresentado no Ceará. Os parceiros envolvidos possuem funções definidas dentro da cadeia, enquanto a indústria participa como compradora e também apoia etapas relacionadas à logística. A organização é particularmente importante porque os agricultores estão distribuídos em diferentes localidades e trabalham em áreas menores.
Depois da colheita, o algodão é pesado e identificado, os dados dos produtores são registrados e a produção é organizada para transporte e processamento. A experiência mostra crescimento da produção entre 2024 e 2026, apesar de dificuldades climáticas e operacionais enfrentadas em algumas regiões. “Com apoio do Estado e de outras entidades, podemos dar condições para o homem e a mulher do campo terem mais condições de produzir e ter mais qualidade de vida”, destacou Wanderley.
A integração entre produção e mercado também ajuda a responder a uma questão apontada ao longo do workshop: para que o agricultor assuma o desafio de produzir uma fibra diferenciada, precisa existir uma cadeia preparada para absorvê-la.
Programa conecta produção agroecológica à moda
No Rio Grande do Norte, a experiência apresentada por Renata Fonseca mostrou o envolvimento direto da iniciativa privada nessa construção. Criado em 2021, o Agro-Sertão, desenvolvido pelo Instituto Riachuelo na região do Seridó, trabalha com agricultores familiares na retomada da produção de algodão em bases agroecológicas.
Um dos elementos do modelo é a garantia de compra de 100% do algodão produzido dentro do programa, reduzindo a incerteza comercial para os participantes. Em cinco anos, a iniciativa expandiu sua atuação e passou a conectar a produção agrícola à cadeia industrial e ao consumidor.
Os dados apresentados para 2026 indicam mais de 230 toneladas de algodão agroecológico colhidas, com 247 agricultores e agricultoras impactados em 17 municípios. O programa também contabiliza 269 hectares de Caatinga regenerados e mais de R$ 1 milhão em renda gerada a partir do algodão agroecológico.
A fibra já chegou ao varejo. Segundo Renata, mais de 70 mil camisetas produzidas com 100% de algodão agroecológico foram desenvolvidas a partir da iniciativa. A experiência inclui ainda produtos que combinam a fibra agroecológica com pigmentos naturais, criando uma conexão entre práticas adotadas no campo, processamento industrial e desenvolvimento de produtos para o consumidor final.
Escala depende de manter valor ao longo da cadeia
As quatro experiências apresentadas convergiram em um ponto: o desafio do algodão agroecológico não termina quando a fibra é produzida. Existe demanda de mercado e há conhecimento acumulado para produzir nas condições do Semiárido. Também existem experiências mostrando que a fibra pode sair das pequenas propriedades, chegar à indústria e se transformar em produtos disponíveis ao consumidor.
Para ampliar esse movimento, porém, a cadeia precisa avançar de forma coordenada. Pesquisa e extensão precisam desenvolver e adaptar tecnologias às condições dos territórios. Governos e instituições locais podem contribuir com assistência técnica, infraestrutura e organização. A indústria, por sua vez, desempenha papel importante ao criar mercado, apoiar a logística e dar previsibilidade à comercialização.
Essa integração ganha relevância justamente porque o modelo de expansão não pode simplesmente reproduzir a lógica das grandes áreas produtoras de algodão. A escala, nesse caso, depende da capacidade de incorporar novos agricultores gradualmente, preservar os atributos ambientais e sociais da produção e garantir que o valor agregado da fibra também gere renda para as famílias envolvidas.
Ao sintetizar as experiências apresentadas, Adriana destacou que tornar essas iniciativas sustentáveis e escaláveis depende de pesquisa, extensão rural, governança e articulação entre os diferentes atores.


