
Bovinos sob árvores de bordão-de-velho na área experimental da Embrapa Rondônia // Foto: Nina Machado Suzigan
Pesquisa da Embrapa e do Centro de Energia Nuclear na Agricultura da Universidade de São Paulo (Cena/USP) demonstrou que a árvore bordão-de-velho (Samanea tubulosa) apresenta várias vantagens ao ser usada em sistemas silvipastoris (SSP), que integram a produção pecuária com a florestal. Um dos ganhos é o aumento da qualidade biológica do solo, o qual estoca mais carbono, mantém comunidades de microrganismos mais estáveis e com maior número de espécies.
O estudo faz parte da tese de doutorado de Henrique Nery Cipriani, pesquisador da Embrapa Florestas (PR), sob a orientação da professora Tsai Siu Mui, do Cena/USP, campus de Piracicaba.
Leguminosa nativa da América Tropical, a árvore ocorre em quase todas as regiões do Brasil; por isso, tem ampla adaptabilidade no País (veja quadro abaixo). “Ela já era considerada uma das melhores espécies de árvore para a integração com pastagens, pois além da sombra proporcionada ao gado, ela é capaz de fixar nitrogênio no solo e ainda produz frutos apreciados pelos animais”, conta Cipriani. O pesquisador ressalta que, apesar de o aproveitamento madeireiro do bordão-de-velho não ser tão vantajoso — diferentemente do eucalipto (foto abaixo) —, por exemplo —, os vários benefícios promovidos pela leguminosa a tornam interessante para pecuaristas.

Estudo realizado na Amazônia
Realizado no campo experimental da Embrapa Rondônia (RO), o trabalho começou em 2018 e analisou amostras de solo coletadas em 2022 e 2024. No início, uma área de 14 hectares com capim-marandu foi dividida em duas parcelas iguais, uma delas recebeu 156 mudas de bordão-de-velho e a outra, 172 mudas de eucalipto. Em dois momentos, quatro anos e seis anos após o início do experimento, foram realizadas coletas de amostras de solos em diferentes profundidades.
“Um dos resultados que mais chamou a atenção foi a elevada fertilidade do solo na área com bordão-de-velho”, relata Cipriani. Nessa parcela foi encontrada quantidade mais expressiva de matéria orgânica e menor acidez. A análise da microbiota, que avaliou bactérias e arqueias, também revelou maior diversidade do que a observada no solo com eucalipto.
Além disso, a pesquisa mostrou que o bordão-de-velho tem um alcance mais abrangente de modulação da microbiota, como é chamada a influência da árvore ao favorecer a presença desses microrganismos. “Encontramos essa influência a até cinco metros de distância da árvore e em profundidades maiores, o que mostra uma ampla área de modulação. Esse alcance não ocorreu com os eucaliptos”, conta o pesquisador.
O perfil das bactérias identificadas na área com bordão-de-velho também foi distinto, com mais alta proporção de microrganismos associados a processos envolvendo nitrogênio e à decomposição de compostos aromáticos. Essa característica indica potencial para degradar moléculas tóxicas, segundo explica o cientista da Embrapa.
“Cada espécie de planta recruta microrganismos de forma diferente, atraindo aqueles mais favoráveis ao seu desenvolvimento. No caso do bordão-de-velho, foi comum encontrar bactérias e arqueias associadas ao nitrogênio, o que está relacionado à capacidade da árvore de fixar esse nutriente”, detalha Cipriani.
Grande estoque de carbono
Entre os arranjos de produção analisados, o sistema silvipastoril com bordão-de-velho foi o que obteve o maior Índice de Manejo de Carbono (CMI), 91,13, o que significa que o solo preservou 91,13% de carbono em relação ao solo da floresta nativa (que recebe o valor de referência de 100). O CMI, da sigla em inglês Carbon Management Index, é um indicador que avalia como o manejo do solo afeta o carbono orgânico, ou seja, a matéria orgânica responsável por fertilidade, estrutura e atividade biológica. É um indicador relativo, geralmente comparado a um solo de referência não cultivado.
Os sistemas com eucalipto e bordão-de-velho também apresentaram estoques de carbono no solo estatisticamente semelhantes e próximos dos da floresta nativa. Após a correção dos valores para considerar diferenças na compactação do solo, foram registrados 107 t/ha no sistema com eucalipto, 95 t/ha com bordão-de-velho e 78 t/ha na floresta nativa. Segundo o pesquisador, os sistemas preservaram os estoques de carbono no solo ou, mais provavelmente, recuperaram parte do carbono perdido após a conversão do uso da área, ocorrida décadas atrás.
“Esses resultados demonstram um ótimo potencial dos sistemas silvipastoris para sequestrar carbono”, observa Cipriani, ao ressaltar que os estudos foram realizados na região Amazônica e que possivelmente obterão bons índices se repetidos em outros biomas; porém, serão necessários experimentos locais para a comprovação.



