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Cuidados com a embreagem

by Daniel Santos

Por Joel Alves *

Transferir o torque produzido pelo motor à caixa de marchas e interromper essa ação sempre que necessário é a função dos componentes da embreagem. Esse processo de transferência, porém, não pode ser abrupto, ao contrário, deve ser paulatino e progressivo. 

O  sistema é composto por disco de fricção (ou de embreagem), disco (placa) de pressão ou platô, rolamento de encosto, suporte (luva) de apoio do rolamento, garfo de acionamento e dispositivo de comando – este último pode ser mecânico, hidráulico, ou hidro-servo-pneumático. Trata-se de um conjunto mecânico situado entre o motor e a caixa de marchas ou de grupos, que possui carcaça metálica chamada pelos mecânicos de “capa seca”, pois trabalha sem lubrificante líquido, embora também exista um sistema de embreagem que trabalhe banhado em óleo e com discos cerâmicos, mas que atualmente está em desuso. 

A força produzida pelo motor fica disponível junto ao volante, a última peça do motor fixada na extremidade do virabrequim. Nesse volante se encontra fixado o platô com a placa de pressão e, prensado entre ambos (platô e volante), fica o disco de embreagem (fricção). A placa de pressão pode ser confeccionada de duas formas: por meio de um conjunto de molas helicoidais fortemente comprimidas em suporte de fixação ou com uma única mola de membrana cônica em aço especial, conhecida nas oficinas como “chapéu-chinês”. Esse último recurso é o mais usual atualmente. Também é importante destacar que nas máquinas com caixa automática a embreagem foi substituída por um sistema a óleo, o conversor de torque. Há tratores mistos, que utilizam conversor de torque na caixa de marchas mas mantém a seleção dos grupos através de embreagem.

Os principais cuidados em relação à embreagem se referem a aspectos operacionais. Devido ao uso constante durante deslocamentos e execução de serviços, o sistema é sempre demandado pelo operador, daí a necessidade de cuidados e a observância de recomendações práticas. Zelo e conhecimento acerca do funcionamento dos componentes do sistema são fundamentais para evitar danos e prolongar a vida útil das peças. 

O que é importante saber? O comando sabidamente é dado com o pé esquerdo, quando o deslocamento do pedal deve vencer a pressão das molas do platô. A intensidade da força aplicada pelo operador varia conforme o tipo de sistema (mecânico ou hidráulico), a potência e o número de horas de funcionamento da máquina. Por isso, o operador deve saber identificar essa relação de força a ser aplicada pelo pé na hora de efetuar o acionamento e, consequentemente, adaptar-se à realidade do equipamento. É importante destacar que nem todos os operadores reconhecem esse procedimento e, muitas vezes, até apontam determinadas respostas da máquina como defeito. Claro que quando o acionamento está muito pesado ou muito leve há algum problema, mas há uma variação aceitável à qual o operador deve adequar-se para não realizar um comando muito brusco ou muito lento, que é prejudicial e causa desgaste prematuro ou ruptura dos discos.   

Outro ponto operacional chave é o exato momento em que a placa de pressão inicia o arrasto do disco de fricção, pois é quando há o confronto entre as forças do motor e a resistência do peso da máquina e do implemento. Isso requer capacidade do operador para identificar esse momento e saber controlar o ritmo da liberação do pedal. 

O acionamento deve ser em ritmo constante, não muito rápido e nem lento demais. Repito (é vocação instrucional!): Esse tipo de cuidado evita desgastes prematuros ou rupturas. Também é importante destacar que a posição em que o pedal começa a liberar a placa de pressão contra o disco varia conforme a máquina e as horas de funcionamento. Estando o pedal totalmente acionado, ao iniciar a liberação, deve haver um percurso livre de acionamento, antes de se iniciar o contato de arrasto – quando o contato fica muito próximo da parte inferior ou da parte superior. Neste caso, o operador deve acionar a manutenção para regulagem ou substituição de componentes. 

O acionamento do pedal da embreagem, por ser parte da rotina, muitas vezes, não recebe a devida atenção, mas descuido ou procedimento inadequado pode causar danos e demandar serviços de manutenção que poderiam ser evitados se o operador executasse o comando observando técnicas corretas. Portanto, conhecer os componentes e o funcionamento da embreagem é requisito de um profissional competente.

Manutenção
Todo componente mecânico, obviamente, requer manutenção, que pode ser preventiva ou corretiva. No caso da embreagem a preventiva é muito simples, enquanto a corretiva é demorada e implica custos significativos, dado que requer desmontagem da parte central da máquina. No caso de tratores pequenos e médios, que não possuem chassi, faz-se necessário abrir completamente a máquina junto ao flange de acoplamento entre o motor e a transmissão, o que demanda equipamentos pesados como talhas ou guindastes.

Os componentes da embreagem sofrem desgastes constantes e a vida útil depende do tipo de operação e serviço executado, bem como do número de acionamento – cada acionamento produz pequeno desgaste do disco de fricção devido ao efeito de arrasto. Esse desgaste faz com que haja perda na transferência da força, podendo ocasionar a patinagem do disco e o superaquecimento de todo o conjunto. Chegar a essa situação significa estar além do limite operacional, sendo necessária a troca dos componentes, ou seja: manutenção corretiva e dias de serviços com máquina parada na oficina.

E a preventiva? Muito simples: regulagem no sistema de acionamento mecânico (haste ou cabo). Até pouco tempo era exigida a lubrificação com graxa junto à luva de deslizamento do rolamento, mas atualmente a luva é confeccionada de material que dispensa lubrificante. No caso de acionamento hidráulico a preventiva é ainda menor, pois se restringe ao controle do fluído hidráulico e tubulações, que deve ser feito tanto na inspeção diária quanto nas revisões programadas, pois não há necessidade de regulagens. 

Quando a manutenção preventiva não é realizada, corre-se o risco de danos significativos e custos elevados com a substituição de componentes, além da indisponibilidade da máquina, pois sem embreagem a máquina necessitará ser rebocada ou se acabará por executar os serviços em local não recomendado. O sistema hidro-servo-pneumático é de pouco uso, mas a preventiva é similar ao sistema hidráulico, acrescido de ações preventivas de manutenção do sistema pneumático. Esse sistema é bastante raro no maquinário agrícola, apenas alguns tratores extrapesados o possuem, pois nesses casos o conversor de torque é mais usual.

Como se vê, os maiores cuidados são referentes à operação. Um operador bem treinado, com capacidade técnica e que entenda o funcionamento do conjunto mecânico, certamente, manterá o sistema em boas condições por mais tempo. Além disso, como já comentamos em artigos anteriores, a ética profissional é indispensável para quem opera uma máquina ou um equipamento. De nada vale ter técnica e conhecimento se faltar ética. Basta querer agir com má vontade e é muito fácil danificar um sistema todo de conjunto de transmissão de forças através do uso incorreto e intencional. Sinto-me na obrigação de fazer tal alerta, pois já presenciei tais fatos. Lamentavelmente, nosso país ainda é palco dessas vivências.

Muita educação e orientação moral se fazem necessário em toda a sociedade e consequentemente no meio rural. Recorro a uma citação histórica de Warren Buffet (empresário e investidor de sucesso dos EUA): “Procurando pessoas para contratar, buscam-se três qualidades: integridade, inteligência e energia. E quando as duas últimas não forem acompanhadas da primeira, sua empresa corre sérios riscos de afundar.”

Joel Sebastião Alves é instrutor de operação e manutenção de máquinas e implementos agrícolas e rodoviários *

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