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Pedro Estevão Bastos, presidente da CSMIA: o mercado não cresceu

Presidente da CSMIA não vê gatilhos para recuperação do mercado de máquinas até o segundo semestre do ano que vem

Pedro Estevão Bastos, presidente da CSMIA: o mercado não cresceupor Gabriel Nascimento – A Associação Brasileira da Indústria de Máquinas e Equipamentos (Abimaq) acredita em uma queda de 20% nas vendas de máquinas e implementos agrícolas em 2023. O novo número substitui a expectativa anterior, de retração de 10% na comparação com o ano passado. Os resultados do mercado de máquinas têm sido negativos desde novembro de 2022, após o esgotamento dos recursos do Plano Safra 2022/23 destinados ao financiamento de máquinas, ainda em outubro. A expectativa, no entanto, era de que a partir da entrada em vigor do atual Plano Safra, a situação melhorasse e o mercado tivesse uma recuperação no segundo semestre, o que não aconteceu.

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 Em entrevista à Máquinas e Inovações Agrícolas, o presidente da Câmara Setorial de Máquinas e Implementos Agrícolas (CSMIA) da Abimaq, Pedro Estevão Bastos, disse que “dificilmente” o cenário atual será alterado. Ele salienta, no entanto, que o setor vêm de três bons anos, com crescimentos expressivos. A expectativa, segundo Estevão, é de um incremento mais tímido na área plantada de grãos no Brasil para a próxima safra. Com isso, o mercado de máquinas deve ser afetado por reposição, não por expansão. Os programas de financiamento vêm funcionando normalmente, diz Estevão, mas os recursos não devem durar até o final do atual Plano Safra. Confura a entrevista a seguir: 

Como você avalia o desempenho do mercado de máquinas até o momento?

O faturamento da Abimaq acumulado deste ano é cerca de 19%, 21% inferior ao ano passado. Esse resultado vem assim desde janeiro, já vem caindo, e tem ficado mais ou menos nessa média de 20%. Acreditamos que o ano vá terminar com queda de 20% . Dificilmente conseguiremos um segundo semestre que mude esse cenário. Não vemos gatilho nenhum para que o mercado melhore. Portanto, o mercado, agora, dá uma assentada, o que já esperávamos. Tivemos três anos excepcionais. Essa retração se deve, basicamente, a dois fatores: vínhamos de uma rentabilidade muito alta dos preços das commodities e de um custo de capital baixo, ou seja, os juros não foram tão altos para a compra de máquinas. Nesses três anos nós tivemos aumento de 4 milhões de hectares plantados ao ano. Isso aumentou a demanda por máquinas. Esses três anos muito bons passaram e, agora, em 2023, voltamos a um mercado que consideramos normal, ou seja, nós não estamos em crise. Simplesmente, o mercado estava num patamar muito alto e voltou ao normal.

Com os recursos do Plano Safra esgotados, se esperava uma recuperação a partir do segundo semestre, o que não ocorreu. A que se deve isso? 

Basicamente, os juros do Plano Safra 2023/24 não ficaram tão baixos. O Moderfrota, que está com 12,5%, ainda é considerado caro pelos produtores, porque ficariam sete anos pagando a 12,5%. Aí o produtor observa relatórios como o Focus falando que ano que vem vai ser 9%, o outro ano pode ser pouco menor. Isso o faz pensar duas vezes. Além disso, a partir de abril deste ano, o mercado interno de milho e soja caiu muito. E o produtor teve de vender, pois não tinha onde armazenar. O produtor não se empolgou com os juros e teve uma menor rentabilidade.

Isso, certamente, impactou na expectativa que vocês tinham para o comportamento do produtor. O que a Abimaq espera a partir de agora?

Para o plantio da safra 2023/24, se fala em um aumento de 500 mil hectares em relação a 22/23. Veja, nós saímos de um aumento de 4 milhões de hectares para 500 mil hectares. Os juros não impactam só na compra de máquinas, mas no custeio, que também não ficou barato. Significa que teremos um mercado mais de reposição, e não um mercado de expansão, que foi o que aconteceu nos últimos três anos. A partir do ano que vem, quando o produtor colher a safra que está plantando agora, ele verá os resultados, os preços futuros, e começará a se preparar para plantar a safra 2024/25. O impacto vem no segundo semestre do ano que vem. Ou seja, daqui até lá não tem nenhum gatilho para falar que o mercado vai mudar por algum motivo. Se tudo continuar como está, teremos um ano normal em 2024, não muito diferente deste. Não estamos em crise, estamos simplesmente levando o mercado como ele é. Como achamos que os juros devem cair, existe uma perspectiva que o mercado fique, então, mais comprador. 

Com relação aos programas de financiamento… Como estão a liberação dos recursos e o acesso dos produtores ao crédito?

Está tudo aberto, tudo funcionando. Houve aquela questão da trimestralidade, mas aquilo a Abimaq e outras entidades conversaram com o governo, que recuou. Basicamente, a trimestralidade ficou para o agente financeiro e não na ponta. Ou seja, os bancos têm que dar conta, a cada três meses, do que eles fizeram com o recurso, mas na ponta não. Está funcionando. Agora você pode perguntar se o dinheiro vai dar. Não, o dinheiro não vai dar. Muito provavelmente, no primeiro semestre do ano que vem, vamos alertar o governo que acabou o dinheiro. Então teremos outro buraco lá no primeiro semestre do ano que vem em que não teremos mais recurso do Plano Safra.

Mesmo que a retração não seja, exatamente, um resultado negativo, a recuperação no segundo semestre não veio. Como essa reversão de expectativa afeta o planejamento da indústria?

Como esperávamos que o mercado crescesse e não cresceu, o planejamento começa a olhar para o orçamento, ou seja, como estão as vendas, a mão de obra etc. Ainda não começamos a demitir, mas pode ser necessário. Desde o pico, não demitimos mais. Quando diminui o volume, a rentabilidade da indústria também diminui. É bem possível que tenhamos um corte de mão de obra neste fim de ano em função do mercado. O impacto da mão de obra no custo de produção varia de 15% a 30%, dependendo do produto.

No começo do ano, a Abimaq projetou que a indústria, como um todo, investiria menos em 2023. O que você tem observado nesse sentido?

O investimento em maquinário para a indústria está bem retraído por causa dos juros, seguindo a mesma lógica do agricultor. Os juros têm muita influência na economia geral. Mas como a indústria tem a flexibilidade dos turnos, a demanda será atendida sem problema nenhum. À medida que o mercado aumenta, começamos a trabalhar em outros turnos, sem precisar aumentar a capacidade instalada.

A indústria, em geral, bate muito no chamado ‘custo Brasil’, que é a diferença de custo do Brasil em relação à média da OCDE [Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico]. E isso envolve vários fatores: custo de capital, com juros altos; impostos altos e complexos; logística; insegurança jurídica etc.

Como isso reflete no estímulo à inovação e na qualificação da mão de obra?

Esse é um problema sério, mas nossa ingerência é muito pequena. Temos falado isso para o governo [Federal], porque é uma demanda de primeiro grau. Treinar essa mão de obra, primeiro na educação básica, depois nas especialidades da indústria, também vira ‘custo Brasil’. Mas isso é uma questão de País, não de governo. Trata-se de uma questão de política de Estado. Na agricultura, o produtor tem o mesmo problema. Ele precisa de uma mão de obra capacitada, desde o operador da máquina, passando pelo agrônomo, até quem consiga trabalhar os muitos dados coletados. E não há essa mão de obra. Hoje, o primeiro gargalo da agricultura é a educação. O segundo é a falta de crédito, e o terceiro é a conectividade.

Quais são as tendências para o desenvolvimento das tecnologias para as  máquinas?

Estamos vendo máquinas inteligentes, com inteligência artificial. A tendência é que essa inteligência artificial vá cada vez mais aumentando. Isso depende de conectividade, de mão de obra para interpretar e mão de obra na indústria. Já estamos partindo para máquinas autônomas. Já existem máquinas autônomas no mercado, que simplesmente não precisam de operador. Elas são capazes de ler bancos de dados e tomar decisões sobre as operações a serem realizadas.

A inovação tecnológica, em especial com máquinas autônomas, acaba com o problema da falta de mão de obra qualificada? Haveria uma necessidade menor de pessoas para essas operações?

Isso não nos preocupa, nem pelo lado do produtor, nem pelo lado social. É um movimento que ainda leva tempo para acontecer. O mercado de máquinas autônomas ainda é muito restrito. Além de demorar para que isso tenha algum impacto, a quantidade de empregos que nós temos criado nas outras áreas é muito maior do que a quantidade de empregos que se fecha. A demanda por mão de obra tem crescido. Por exemplo, há 15 anos, não havia tecnologia da informação no campo. Hoje você precisa de funcionários que entendam do assunto. Tem que ter gente lá para manutenção de rede, para mexer nos computadores, para fazer os relatórios. Foram criados mais empregos do que extintos. Não temos problema com desemprego. Hoje é o contrário, nós criamos tanto emprego, tanta demanda, e não tem gente para fazer isso.

Como a indústria se planeja em relação a essas inovações? Como elas surgem? É uma demanda do agricultor, são ideias da própria indústria? 

Temos várias fontes. Uma delas chamamos de “dor do agricultor”. A indústria faz pesquisas para saber onde estão os grandes gargalos, os grandes problemas dele. E tenta fazer, de todas as maneiras, alguma tecnologia que os solucione. Outra fonte são as universidades, que estão pesquisando, olhando para o campo também, pesquisando mais ou menos a mesma coisa, ou seja, onde é que tem oportunidades de melhoria com a tecnologia existente. Às vezes, há uma tecnologia que precisa ser adaptada para o mercado. A inteligência artificial é um exemplo. Por fim, temos as novas tecnologias, principalmente na biotecnologia. Às vezes se muda o jeito de pulverizar, e é preciso ter um maquinário adaptado a isso.

Retornando ao contexto do mercado, para concluir… Quais são os aspectos críticos que merecem atenção por parte da indústria? E o que o produtor deve considerar para estar bem posicionado no mercado de máquinas?

Olhando para o médio prazo, para os próximos dez anos, tanto a FAO [Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura] como o USDA [Departamento de Agricultura dos Estados Unidos] têm falado que o Brasil precisaria aumentar em 30% a exportação de alimentos para o mundo. Então precisamos aumentar a área. No curto prazo, isso depende das variações de mercado, dos juros. No longo prazo, vemos que somos rentáveis e altamente competitivos. O agricultor precisa olhar suas operações, não só na parte das máquinas, mas na agronômica, para, cada vez mais, incorporar tecnologias. 

Outro ponto é a mão de obra. Se ficar esperando o governo para ter mão de obra, vai perder a ‘guerra’. Então, trata-se de uma batalha que os próprios agriculores têm de se juntar e começar a formar mão de obra, interferir nesse processo. Ele tem de prestar a atenção na gestão financeira. Por exemplo, o furo que o pessoal deu, de não vender a soja lá em 2022, deixar para vender tudo em 2023, isso é amadorismo. Deviam ter feito preço médio. 

E ainda, não ter um armazém também é questão de gestão. É preciso observar que o mercado está ficando cada vez maior e você tem de ter um lugar para guardar [sua produção]. Isso é gestão, isso não é nem agronômico nem máquina, é puramente gestão de administração de empresa. Melhoramos muito na parte agronômica e de maquinário. Na parte de gestão, ainda deixamos a desejar.

 

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