John Deere amplia vendas de kits para modernizar máquinas em meio ao crédito caro

Clarisse Sousa – Em meio aos juros elevados e à pressão sobre a rentabilidade do produtor rural, a John Deere amplia a oferta de kits que permitem incorporar tecnologias de agricultura de precisão a máquinas usadas. As soluções incluem recursos para controlar a distribuição de sementes, reduzir desperdícios na pulverização e automatizar operações, sem exigir necessariamente a compra de um equipamento novo.

Segundo Jackson Schneider, executivo à frente da área de Precision Upgrades, a John Deere passou a vender cinco vezes mais kits de modernização do que vendia há cinco anos. A equipe responsável pelo negócio, criada há quatro anos, passou de duas pessoas para cerca de 80.

O executivo concedeu entrevista ao Portal MIA durante visita de jornalistas à fábrica da John Deere em Catalão (GO), nesta quinta-feira, 15. Na ocasião, a empresa apresentou soluções para diferentes tipos de máquinas e necessidades de operação.

O que são os kits de atualização

Os kits de atualização reúnem componentes, sensores, sistemas eletrônicos e recursos de software que permitem incorporar novas funcionalidades a máquinas que já estão no campo. As soluções variam conforme o equipamento e a tecnologia escolhida, desde recursos específicos até sistemas mais avançados de automação e agricultura de precisão.

Nas plantadeiras, as atualizações podem incluir a eletrificação da distribuição de sementes, ampliando o controle sobre o plantio. Nos pulverizadores, há soluções para controlar individualmente cada bico, reduzindo sobreposições na aplicação, e tecnologias como o See & Spray, que identificam plantas daninhas e direcionam a pulverização aos locais onde elas estão presentes, evitando a aplicação de herbicidas em toda a área.

Os equipamentos também podem ser conectados ao Operations Center, plataforma digital da John Deere que reúne dados das operações agrícolas e auxilia o produtor no acompanhamento das atividades e no planejamento da produção.

A compatibilidade depende do modelo, da configuração e da arquitetura tecnológica de cada máquina. De acordo com Schneider, a fabricante dispõe de kits para cerca de 95% do portfólio de máquinas da marca fabricadas a partir de 2015. O percentual, porém, não significa que todas as atualizações estejam disponíveis para qualquer equipamento desse período.

Conforme explicou Pedro Cervo, gerente de produto de Precision Upgrades, a adoção pode começar por recursos como antenas de posicionamento, monitores e softwares embarcados e avançar para tecnologias que automatizam etapas da operação. A escolha depende das necessidades do produtor, das características da máquina e do investimento previsto.

Investimento e retorno

A vantagem dos kits é o custo do investimento em relação à compra de uma máquina nova. As atualizações para plantadeiras podem representar de 15% a 20% do valor de um equipamento, calcula Schneider. A oferta também inclui soluções de menor investimento. Em algumas aplicações para colheitadeiras, o executivo citou kits cujo valor pode representar cerca de 1% do preço de uma máquina nova, dependendo da solução considerada.

O retorno financeiro varia conforme a tecnologia adotada e as condições de uso. Schneider afirma que há kits cujo investimento pode ser recuperado em 12 a 18 meses. A avaliação deve considerar os ganhos efetivamente obtidos na operação, como a redução de insumos, o aumento da capacidade operacional e a diminuição de desperdícios.

Para o executivo, o cenário econômico tem reforçado a procura por alternativas à compra de máquinas novas.

“Se pensarmos no financiamento escasso, nos juros altos e também na pressão sobre a rentabilidade do produtor, ele está tomando decisões entre comprar outro equipamento ou atualizar o que já tem. E o nosso negócio cresceu. É uma oportunidade imensa para a John Deere, para o concessionário e também para o cliente”, afirmou.

Precisão para reduzir desperdícios

Além de ampliar o acesso à tecnologia, os kits buscam otimizar o uso de insumos e o desempenho das operações. No caso da pulverização, as soluções podem reduzir o consumo de herbicidas em média 60%, chegando a 90% em determinadas condições, conforme o nível de infestação da área, avalia Schneider. Os resultados variam de acordo com a tecnologia utilizada e as condições de operação.

O executivo também cita potencial de redução de até 7% no consumo de sementes e ganhos de até 20% na eficiência operacional. Os percentuais dependem das soluções adotadas e das condições de uso, não representando resultados garantidos para todas as operações.

Na pulverização, o controle individual dos bicos pode contribuir para evitar aplicações sobrepostas, enquanto sistemas de circulação e recuperação de calda podem ajudar a reduzir sobras de produto. Já nas plantadeiras, as atualizações podem incorporar recursos de controle da distribuição de semente e melhorar a precisão do plantio.

Kits e venda de máquinas novas

A John Deere não vê a ampliação das vendas de kits como uma ameaça ao negócio de máquinas novas. Schneider afirma que a proposta ajuda a ampliar as possibilidades de acesso às tecnologias da marca, inclusive para produtores que ainda não pretendem investir na renovação da frota. Nesse sentido, “os kits também podem funcionar como uma porta de entrada para a agricultura de precisão, aproximando novos clientes dessas soluções”.

“Não entendemos isso como uma ‘canibalização’ de vendas. A estratégia é acompanhar o produtor ao longo de sua jornada, oferecendo soluções compatíveis com suas necessidades e seu momento de investimento. Assim, quem opta por atualizar uma máquina existente pode incorporar tecnologias da John Deere sem precisar adquirir um equipamento novo naquele momento, enquanto a compra de uma máquina nova continua sendo uma opção quando fizer sentido para a operação.”

A conectividade é outra frente da estratégia da fabricante. Ao integrar máquinas novas e atualizadas ao Operations Center, a empresa busca ampliar o uso dos dados gerados no campo e preparar os equipamentos para acompanhar a evolução das ferramentas digitais.

“O mais importante é trazer esses equipamentos, novos ou atualizados, para o centro de operações da John Deere, para que o produtor possa se beneficiar da escalada da inteligência artificial”, concluiu Schneider.

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