Clarisse Sousa – O setor de máquinas agrícolas pode encerrar 2026 com queda entre 15% e 20% nas vendas em relação ao ano passado, segundo avaliação da Associação Brasileira da Indústria de Máquinas e Equipamentos (Abimaq). A projeção reflete, principalmente, a baixa rentabilidade dos produtores de soja e milho, cenário que continua limitando os investimentos e deve manter o mercado pressionado.
“O ano está muito difícil para o setor. Não enxergamos, neste momento, nenhum gatilho claro para uma recuperação do mercado”, afirmou Pedro Estevão, presidente da Câmara Setorial de Máquinas e Implementos Agrícolas (CSMIA) da Abimaq, durante coletiva de imprensa realizada nesta terça-feira (30). Ele informou ainda que a entidade avaliará os efeitos do Plano Safra 2026/27, anunciado pelo governo federal nesta terça-feira, antes de consolidar a projeção para este ano. “Teremos reunião nesta quarta-feira (1º) para avaliar o programa. O segundo semestre de 2025 já foi bastante fraco e o cenário atual continua desafiador”, disse.
Estevão atribui a retração do setor à baixa rentabilidade do produtor rural. “O mercado está fraco porque a rentabilidade está muito baixa. Soja e milho continuam apresentando margens reduzidas, enquanto os preços das commodities não estão em patamares elevados”, explicou.
A receita líquida da indústria de máquinas e implementos agrícolas somou R$ 4,59 bilhões em maio, queda de 31% em relação ao mesmo mês de 2025. No acumulado de janeiro a maio, o faturamento alcançou R$ 21,67 bilhões, recuo de 21,1% frente ao mesmo período do ano passado.
Tratores
Nas vendas de tratores ao usuário final, foram comercializados 3.345 unidades em maio, queda de 8,1% em relação a abril e de 16,6% na comparação com maio de 2025. No acumulado do ano, o segmento apresenta retração de 9,5%. As vendas de fábrica somaram 3.764 unidades, crescimento de 2% sobre abril, mas queda de 16,5% frente ao mesmo mês do ano passado.
As exportações de tratores seguem em trajetória positiva. Em maio foram embarcadas 783 unidades, alta de 58,2% em relação a abril e de 49,4% na comparação anual. No acumulado de 2026, o crescimento chega a 37,7%.
Colheitadeiras
O segmento de colheitadeiras continua sendo o mais afetado pela retração dos investimentos. Em maio foram vendidas 108 unidades ao usuário final, queda de 38,6% sobre abril e de 47,1% na comparação com maio de 2025. No acumulado do ano, o recuo chega a 39,2%.
As vendas de fábrica somaram apenas 41 unidades, retração de 24,1% frente a abril e de 81,7% na comparação anual.
Comércio exterior
As exportações de máquinas e implementos agrícolas somaram US$ 132,9 milhões em maio, crescimento de 7,6% em relação ao mesmo mês do ano passado. No acumulado de janeiro a maio, as vendas externas avançam 17,5%.
Já as importações alcançaram US$ 110,7 milhões em maio, queda de 6,6% na comparação anual e retração de 9% no acumulado.
Plano Safra 2026/27
A expectativa do setor agora está voltada aos efeitos do Plano Safra 2026/27. O programa anunciado hoje vai destinar R$ 525,1 bilhões para a agricultura empresarial e reduziu as taxas de juros em diversas linhas de financiamento. No Moderfrota, principal programa de financiamento para máquinas agrícolas, os juros caíram para 11,5% ao ano, para produtores enquadrados no Pronamp, e para 12,5% ao ano para os demais produtores.
Na avaliação de Estevão, o efeito do novo Plano Safra tende a ser neutro para o setor. “Não é bom, mas também não é ruim” e manteve características semelhantes às das edições anteriores. “Não houve grandes avanços. É um Plano com caráter de continuidade. Não é uma notícia ruim, mas também não traz mudanças significativas para o mercado.”
Embora o Moderfrota tenha recebido menos recursos que no ciclo anterior (caiu de R$ 12,5 bilhões para R$ 5,8 bilhões), Estevão avalia que esse recuo tende a ser compensado pelos recursos destinados ao programa Move Agricultura, também voltado ao financiamento de máquinas agrícolas, que disponibilizará R$ 14 bilhões em crédito com taxa de 9,2% ao ano. Segundo ele, a soma das duas linhas (Moderfrota + Move Agricultura) mantém um volume considerado adequado para o financiamento de máquinas agrícolas.
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