Motores agrícolas mais sustentáveis ganham força e impulsionam inovações

Ana Machado – A busca por sustentabilidade e eficiência energética tem impulsionado transformações importantes na indústria de máquinas agrícolas. Fabricantes de tratores e colheitadeiras, centros de pesquisa e startups do setor vêm investindo no desenvolvimento de motores agrícolas mais limpos e econômicos, sistemas de transmissão mais inteligentes e na adoção de combustíveis alternativos, como biodiesel e biometano. Embora a eletrificação no campo ainda seja incipiente no Brasil, a tendência é clara: o agronegócio está em processo de descarbonização, e os motores sustentáveis são uma peça-chave dessa transição.

Segundo dados do Sistema de Estimativas de Emissões e Remoções de Gases de Efeito Estufa (SEEG), mantido pelo Observatório do Clima, o setor agropecuário está entre os maiores emissores de gases de efeito estufa no Brasil, sendo parte significativa proveniente da queima de combustíveis fósseis nas operações mecanizadas. Nesse contexto, a inovação tecnológica surge como ferramenta estratégica para conciliar aumento de produtividade com responsabilidade ambiental.

Combustíveis alternativos

Entre os biocombustíveis, o biometano tem ganhado destaque no campo brasileiro, especialmente por sua sinergia com sistemas de produção agropecuários. Derivado da biodigestão de resíduos orgânicos (como dejetos de suínos, aves e restos de culturas agrícolas), o biometano permite a autossuficiência energética nas propriedades rurais, além de ser considerado um combustível de “emissão negativa” quando comparado ao diesel fóssil.

Fabricantes como a New Holland têm apostado nessa fonte. O trator T6 Methane Power, lançado no Brasil em 2023, é o primeiro do mundo movido 100% a gás biometano, oferecendo desempenho equivalente ao diesel, mas com até 80% menos emissões de CO₂ e redução de até 30% no custo operacional, segundo a marca. A expectativa é que o uso desse tipo de máquina ganhe escala, especialmente em regiões com cadeias produtivas integradas e oferta de matéria-prima para produção local de biogás.

O biodiesel, por sua vez, já é uma realidade consolidada. O Brasil possui um dos programas mais avançados do mundo de mistura obrigatória – atualmente em 14% (B14), com meta de atingir B25 até 2030, conforme diretrizes do Renovabio. Além de reduzir a pegada de carbono dos motores a combustão, o biodiesel impulsiona cadeias produtivas ligadas à soja, ao sebo bovino e a outras oleaginosas.

Pesquisadores da Universidade Federal de Viçosa têm mostrado, em ensaios de desempenho, que motores agrícolas podem operar com blends superiores a B20 sem comprometer o rendimento, desde que observadas adaptações técnicas e boas práticas de manutenção.

Inovação em motores

Durante a Agrishow deste ano, em Ribeirão Preto (SP), a John Deere apresentou um protótipo de um trator com motor 100% movido a etanol – uma aposta da empresa em soluções energéticas mais limpas. O modelo 8R está em fase de testes no Brasil, especialmente nas culturas de grãos e cana-de-açúcar, onde o etanol é amplamente disponível.

Segundo a fabricante, o motor recebeu ajustes de software para garantir desempenho semelhante ao do diesel, com menor emissão de poluentes. E o Brasil foi escolhido como mercado inicial por sua liderança na produção de etanol e forte infraestrutura de distribuição.

Outra gigante que tem dedicado tempo ao desenvolvimento de um motor 100% a etanol é a Cummins. A empresa apresentou o conceito do motor B6.7 durante a Agrishow deste ano, revelando que o motor conceito terá potência de 325 cv para entregar desempenho similar ao de um motor a diesel, mas com a vantagem de operar com um combustível limpo e renovável.

Seu sistema de injeção direta a 350 bar, cabeçote com duplo comando de válvulas e turbocompressor ideal para as condições operacionais brasileiras, promete alto potencial de eficiência energética e uma operação mais silenciosa e limpa, assim como manutenção facilitada.

Mauricio Biadola, diretor de Vendas da Cummins Brasil // Foto: Clarisse Sousa

“Dentro da estratégia Destino ao Zero, que guia a transição energética da empresa com base em inovação, colaboração e sustentabilidade, o etanol surge como um elemento viável e importante”, diz Mauricio Biadola, diretor de Vendas da Cummins Brasil.

“Essa estratégia parte do entendimento de que o caminho para a descarbonização passa por múltiplas rotas, respeitando a vocação energética e a infraestrutura de cada país. No caso do Brasil, além do gás natural, biometano e biodiesel, o etanol ocupa uma posição estratégica por sua disponibilidade, infraestrutura consolidada e potencial de redução de emissões”, completa.

Avanço das transmissões

Outra frente importante da sustentabilidade nas máquinas agrícolas está nas transmissões. O avanço de sistemas como CVT (Transmissão Continuamente Variável) e transmissões eletrônicas com múltiplas marchas automatizadas (como a Powershift) tem permitido uma gestão mais eficiente do motor, com menor consumo de combustível e melhor aproveitamento da potência.

Também na Agrishow deste ano, a ZF apresentou o eTrac, seu novo acionamento auxiliar elétrico desenvolvido para apoiar a tração principal do trator. A proposta é bastante prática: ele pode ser instalado nas rodas de implementos como arados ou transbordos de cana ou grãos, sendo ideal para trabalhar em conjunto com motores elétricos em terrenos com aclives ou declives.

“Por ser um sistema auxiliar elétrico, ele permite que o agricultor use um trator menor para fazer o mesmo trabalho que antes exigia um modelo mais robusto. Isso significa menos consumo, menos emissão e uma operação mais sustentável – sem perder desempenho e ainda preservando o solo”, explica Juliano Alquati, gerente sênior de Negócios de Tecnologia Industrial da ZF.

Estudos técnicos no Brasil mostram que transmissões como CVT permitem operar tratores com rotações otimizadas, melhorando a eficiência energética durante manejos com variação de velocidade, enquanto modelos FPS demonstram maior rendimento em tração e menor consumo horário em testes laboratoriais.

Máquinas equipadas com esse tipo de tecnologia, embora ainda tenham custo inicial mais elevado, tendem a oferecer melhor custo-benefício no longo prazo, por conta da economia de combustível e da redução de desgaste de componentes.

Tratores elétricos: um futuro ainda em construção

Enquanto motores híbridos e a gás ganham espaço no mercado brasileiro, os tratores elétricos são uma realidade mais palpável no exterior, com protótipos sendo testados nos Estados Unidos, China e Europa.

A startup americana Monarch Tractor, por exemplo, lançou um modelo 100% elétrico com autonomia de até 14 horas e equipado com tecnologia de conectividade em tempo real, voltado principalmente para agricultura de precisão e vinícolas.

A John Deere também tem apostado em um projeto ambicioso de eletrificação e com financiamento público, o GridCON 2. Ele se baseia nos resultados de inovações anteriores e investiga a abordagem de um trator elétrico a bateria que oferece desempenho consistentemente alto sem restrições no tempo de operação.

Como resultado, em meados de 2022, a multinacional apresentou o protótipo do SESAM 2, um trator autônomo e 100% elétrico, equipado com um com um módulo de bateria com capacidade total de 1.000 kWh. Segundo a divisão da empresa na Alemanha, o equipamento foi testado de forma completa e bem-sucedida em campo, chegando a operar produtivamente por um dia inteiro de trabalho sem recarga.

Um ano antes, a China apresentou um modelo elétrico, autônomo e já adaptado para operar com tecnologia 5G. A criação foi fruto de uma colaboração entre o Instituto Nacional de Inovação e Desenvolvimento de Máquinas Agrícolas (CHIAIC) e o Instituto de Pesquisa em Equipamentos Avançados de Tianjin, vinculado à Universidade Tsinghua.

Trata-se de um trator 4×4 equipado com um motor elétrico síncrono central, responsável por movimentar o eixo traseiro, enquanto cada roda dianteira é acionada por um motor elétrico individual. O destaque do sistema está no uso combinado de células a combustível de hidrogênio, que entram em ação quando a máquina está em operação leve ou em deslocamento, e de baterias de lítio, que são automaticamente acionadas em situações que exigem maior potência.

Cenário da eletrificação no Brasil

Por aqui, o uso de tratores elétricos ainda é restrito a testes e importações pontuais, principalmente por limitações de infraestrutura elétrica em áreas rurais, custo das baterias e desafios logísticos. Ainda assim, marcas como AGCO, CNH Industrial e Yanmar já demonstram interesse em tropicalizar essas tecnologias, e universidades vêm desenvolvendo estudos sobre viabilidade técnica e econômica da eletrificação no campo.

Em paralelo, há pesquisas em andamento sobre como adaptar modelos a diesel com motores elétricos. Um artigo recente publicado por pesquisadores da Faculdade Senai de Tecnologia Mecatrônica analisou a viabilidade técnica para a eletrificação de um trator agrícola de 132 cv de potência e motor a diesel. Após a substituição por um motor elétrico, os pesquisadores identificaram que o custo operacional por hora de trabalho chegou a ser 42% mais barato em comparação ao modelo original, considerando os atuais preços do diesel e da energia elétrica rural.

Segundo eles, a integração de um trator elétrico com sistemas de microgeração em propriedades rurais pode reduzir ainda mais esses custos, tornando as propriedades autossuficientes e ecologicamente corretas.

“A geração de energia em propriedades rurais está se tornando mais acessível. Micro hidrelétricas, rodas d’água, biodigestores, energia eólica e fotovoltaica são algumas opções. A queda no custo dos sistemas fotovoltaicos e os incentivos governamentais impulsionam essa tendência, tornando a produção de energia própria economicamente viável até mesmo para pequenos produtores”, descrevem os pesquisadores do Senai.

Pesquisa brasileira acompanha as tendências globais

O avanço dessas tecnologias no Brasil também é impulsionado por uma crescente produção acadêmica voltada à sustentabilidade das máquinas agrícolas. Estudos de diversas universidades brasileiras abordam desde a análise de ciclo de vida de motores movidos a biodiesel até simulações de eficiência energética em tratores elétricos.

Apesar dos avanços, a transição para uma frota agrícola mais limpa ainda enfrenta desafios. O alto custo inicial das máquinas mais tecnológicas, a falta de infraestrutura para biometano e eletrificação, a necessidade de capacitação técnica e a dificuldade de acesso ao crédito são alguns dos principais entraves.

Por outro lado, o interesse crescente de cooperativas, grandes grupos do agronegócio e políticas públicas voltadas à sustentabilidade podem acelerar essa transformação. Programas como o Renovabio, linhas do BNDES voltadas à inovação verde e a pressão de mercados internacionais por cadeias produtivas com menor impacto ambiental reforçam esse movimento.

O cenário aponta para um novo ciclo no agronegócio brasileiro: mais digital, mais eficiente e mais limpo. A transição para motores sustentáveis em máquinas agrícolas não é apenas uma questão de inovação tecnológica, mas também de estratégia econômica e reputacional.

Perspectivas para um agro mais sustentável

Investir em energia limpa no campo, seja por meio do uso de biocombustíveis, eletrificação ou da adoção de sistemas de transmissão inteligentes, é um passo importante para manter a competitividade do Brasil como potência agrícola global e atender às demandas de um consumidor cada vez mais atento à sustentabilidade.

E sobre o papel do Brasil na agricultura do futuro, o professor Leandro Maria Gimenez, do Departamento de Engenharia de Biosistemas ESALQ/USP, afirma que o nosso país é e seguirá sendo mais eficiente que a grande maioria dos demais na produção de alimentos, mas precisa de um plano para agregar valor aos nossos produtos e ele passa necessariamente por um agro mais sustentável.

“Somos reféns da nossa vantagem competitiva na produção de bens agrícolas. É preciso virar a chave para se manter relevante. Talvez a nossa grande contribuição possa ser a da preservação do meio ambiente e a prestação de serviços ambientais ao mundo”, conclui.

 

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