Consórcio agrícola ganha espaço no planejamento de investimentos no campo

A renovação de máquinas, a ampliação da estrutura produtiva e a adoção de novas tecnologias exigem planejamento financeiro do produtor rural. Como os investimentos podem envolver valores elevados e o fluxo de caixa acompanha o ciclo da produção, o consórcio agrícola pode ser utilizado para programar a aquisição de bens e equipamentos sem a cobrança de juros bancários.

A modalidade é voltada principalmente a investimentos que não precisam ser realizados de forma imediata. Ao definir o valor da carta de crédito e incorporar as parcelas ao orçamento da propriedade, o produtor pode distribuir o custo do investimento ao longo do tempo, preservando recursos para as despesas do ciclo produtivo.

Dados da Associação Brasileira de Administradoras de Consórcios (ABAC) mostram o avanço da modalidade entre os investimentos em máquinas agrícolas. Em 2025, foram comercializadas 100,94 mil cotas, enquanto os créditos comercializados chegaram a R$ 25,46 bilhões, alta de 14,2% em relação aos R$ 22,30 bilhões registrados em 2024. Em dezembro, havia 467,22 mil consorciados ativos, crescimento de 7,7% em um ano.

Para Marcelo Lucindo, fundador e CEO da Evoy Consórcios, o modelo se relaciona com o planejamento de longo prazo necessário na atividade rural.

“O produtor é, por natureza, um planejador. Ele precisa decidir com antecedência quando renovar uma máquina, ampliar uma área, investir em armazenagem ou incorporar tecnologia à operação. O consórcio cria uma rota organizada para esses investimentos, com parcelas previsíveis e sem juros bancários. É uma ferramenta que pode ajudar a preservar o fluxo de caixa e dar mais racionalidade às decisões de longo prazo”, afirma.

Como funciona o consórcio agrícola

Diferentemente do financiamento, em que o recurso é disponibilizado para a aquisição imediata do bem, o consórcio reúne participantes que contribuem mensalmente para um fundo comum. A contemplação ocorre por sorteio ou lance e, quando contemplado, o participante recebe uma carta de crédito para realizar a compra prevista no contrato.

Para o produtor rural, o crédito pode ser utilizado na aquisição de tratores, colheitadeiras, pulverizadores, plantadeiras, caminhões e outros equipamentos, além de imóveis rurais, estruturas e determinadas tecnologias, conforme as regras de cada grupo.

O modelo também permite distribuir investimentos de maior porte de acordo com o fluxo financeiro da propriedade. Preparação do solo, plantio, colheita, comercialização e compra de insumos concentram despesas em diferentes períodos do ano, o que torna o planejamento dos investimentos uma parte importante da gestão da propriedade.

“O planejamento não significa olhar apenas para o valor da parcela inicial. É preciso considerar o prazo, a taxa de administração, a existência de fundo de reserva, seguros eventualmente contratados e os critérios de reajuste. A contratação precisa estar alinhada à capacidade de pagamento do produtor e ao momento em que ele pretende realizar o investimento”, explica Marcelo.

Consórcio ou financiamento para comprar máquinas agrícolas?

Para investimentos que não precisam ser realizados imediatamente, o consórcio para máquinas agrícolas pode ter custo menor que um financiamento, principalmente pela ausência de juros bancários. A diferença, porém, depende das condições de cada operação.

Em um exemplo apresentado pela Evoy, um trator de R$ 500 mil seria adquirido com R$ 100 mil de entrada e R$ 400 mil financiados em 60 meses. Ao final do período, o desembolso chegaria a cerca de R$ 640 mil, dos quais aproximadamente R$ 240 mil corresponderiam aos juros.

No consórcio, o produtor poderia utilizar os R$ 100 mil disponíveis e contratar uma carta de crédito de R$ 400 mil. Considerando um plano de 60 meses, taxa de administração de 15% e fundo de reserva de 2%, as parcelas ficariam em torno de R$ 7.800, com custo total aproximado de R$ 468 mil.

A comparação, no entanto, não considera apenas os valores finais. O financiamento garante, em geral, acesso imediato ao recurso, enquanto o consórcio depende da contemplação por sorteio ou lance. Além disso, as parcelas e a carta de crédito podem sofrer reajustes previstos em contrato.

Consórcio agrícola também tem custos

A ausência de juros bancários não significa que o consórcio seja isento de custos. O produtor deve considerar a taxa de administração, o fundo de reserva, eventuais seguros e os critérios de atualização das parcelas e da carta de crédito.

Por isso, a decisão deve levar em conta o custo total do consórcio, o prazo de pagamento, a capacidade financeira da propriedade e o momento previsto para a realização do investimento.

Outro ponto importante é a contemplação. Como ela ocorre por sorteio ou lance, não há garantia de recebimento imediato da carta de crédito.

“Não existe contemplação imediata garantida em um consórcio regular. Quando o investimento pode ser planejado, porém, o consórcio pode se tornar uma ferramenta interessante para organizar a renovação de ativos e preservar recursos para outras necessidades da atividade rural”, finaliza Marcelo.

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