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Práticas conservacionistas são usadas para resgatar solo

Por Gustavo Paes

 

Para resgatar a fertilidade do solo, produtores investem em técnicas como semeadura em contorno, diversificação de culturas e terraceamento

O ano agrícola de 2020 foi marcado pelo fenômeno climático La Niña, que provoca estiagens na Região Sul do Brasil. Apesar da seca prolongada em alguns municípios, ocorreram temporais, que carregaram sementes, fertilizantes, restos de cultura, matéria orgânica e agroquímicos, causando prejuízos econômicos e ambientais. Para resgatar a fertilidade do solo e a produtividade, os produtores decidiram retomar práticas conservacionistas, como diversificação de culturas, semeadura em contorno e terraceamento.

A Empresa de Pesquisa Agropecuária e Extensão Rural de Santa Catarina (Epagri) está retomando essa prática de conservação no estado, onde o número de produtores rurais interessados vem aumentando. Na região Oeste, mais de 1.100 hectares utilizam a tecnologia dentro do projeto “Manejo e conservação de solo e água”. O destaque da iniciativa, que beneficia 80 famílias em 25 municípios, é Xaxim, que conta com terraceamento em 176 hectares, e Caxambu do Sul, que possui 92 hectares terraceados.

A metodologia introduzida pela Epagri é conhecida como Terraço for Windows. Ela foi desenvolvida pela Universidade Federal de Viçosa (UFV) e validada pela Embrapa Trigo, de Passo Fundo (RS), pela empresa Sementes Falcão, de Sarandi (RS), e agora também pelo grupo de trabalho da Epagri. “Essa tecnologia mudou a forma como se trabalha com terraços”, destaca o Chefe de Transferência de Tecnologia da Embrapa Trigo, Jorge Lemainski.  

O engenheiro agrônomo Marcelo Henrique Bassani, da Gerência Regional de Xanxerê (SC) da Epagri, explica que o método tem como base a declividade do terreno, a infiltração de água no solo e o histórico de chuvas da região. “A tecnologia visa captar e armazenar água no solo e evitar a erosão e a degradação do terreno, com o objetivo de obter maiores ganhos de produtividade e rentabilidade das lavouras, além dos ganhos ambientais e sociais”, salienta. 

Os terraços agrícolas são estruturas mecânicas ou obras hidráulicas constituídos por um camalhão (crista de terra) e um canal, construídos transversalmente ao plano de declive do terreno, de modo a estabelecer obstáculo físico ao escoamento superficial das águas que não se infiltram no solo durante a ocorrência das chuvas. 

Essas estruturas dividem o plano de declive do terreno em faixas horizontais. Eles têm por objetivo auxiliar os processos de conservação do solo e da água, pois reduzem a velocidade da enxurrada, transportando-a para fora da lavoura ou armazenando-a para que se infiltre no solo após a chuva cessar. O tamanho do camalhão é calculado para que cada metro linear de terraço seja capaz de receber até 2 mil litros de água, em média e – e cerca de 30% dela pode ser usada pelas plantas em época de seca. “Um terraço de 100 metros lineares tem capacidade para armazenar 250 mil litros de água”, explica.

Maior produtividade

 O efeito na produtividade é melhor observado durante os períodos de estiagem. Lavouras de soja com terraceamento na região de Passo Fundo, onde a prática foi validada, produziram 50 sacas por hectare na safra 2013/14, em uma temporada marcada por estiagem. Na mesma região, lavouras sem terraceamento produziram, em média, 30 sacas por hectare. Outra vantagem é a economia de adubo. Os terraços de base larga evitam que a água escoe pela lavoura, carregando adubo e matéria orgânica. Nas propriedades onde o sistema está consolidado, os estudos mostraram que os nutrientes ficam seis vezes mais concentrados no solo. 

Mas não foi exatamente isso que ocorreu nos últimos 20 anos nas lavouras da Região Sul. Especialistas apontam que houve um retrocesso, pelo manejo inadequado do solo, compactação e redução da infiltração de água. Com isso, a erosão acabou aumentando em muitas lavouras, levando a parte fértil do solo, além de fertilizantes, inseticidas e herbicidas. Isso provocou prejuízo aos agricultores e poluiu os rios. 

“A falta de qualidade do plantio direto praticado, resultante da baixa cobertura do solo com palha, a falta de rotação de culturas e o manejo inadequado de máquinas e animais em sistemas integrados de produção provocaram o aparecimento da camada compactada, a diminuição da infiltração e o consequente aumento do escoamento de água sobre a superfície do solo, fazendo ressuscitar a erosão nas lavouras”, diz o agrônomo Juliano Gonçalves Garcez, extensionista da Epagri de Caxambu do Sul.

Agricultura ultrapassada 

A prática, no entanto, não é nova. Nas décadas de 1980 e 1990, a Epagri realizou um trabalho pioneiro em Santa Catarina e na Região Oeste do Estado. Mas, com o advento do plantio direto na palha, o terraceamento foi praticamente abandonado. Os agricultores acreditavam que o plantio direto, com a manutenção da palhada das lavouras sobre o solo, bastaria para controlar a erosão.

E os terraços agrícolas passaram a ser considerados símbolos de uma agricultura ultrapassada. Construídos nas décadas de 1970, 1980 e 1990 como única prática de conservação, eles acabaram desmontados porque dificultavam a operação das máquinas nas lavouras. Mas estão retornando com uma nova concepção de demarcação, construção e manutenção.

 A metodologia Terraço for Windows foi desenvolvida pelo professor Fernando Pruski, da Universidade Federal de Viçosa (UFV) e testada e aprovada pela Embrapa Trigo e pela Emater do Rio Grande do Sul em lavouras gaúchas. Ela leva em consideração as maiores chuvas do local, a capacidade de infiltração de água e a inclinação dos solos da propriedade. Dessa forma, os terraços podem ser construídos bem mais espaçados.

 Os especialistas em conservação do solo se esforçam para demonstrar e convencer técnicos e produtores rurais de que a simples adoção do sistema de plantio direto nas regiões de clima subtropical não é suficiente para controlar a erosão. Diante do regime de chuvas, do relevo, das classes de solo e dos sistemas agrícolas produtivos predominantes na Região Sul, além da cobertura de solo, as lavouras requerem também tecnologias para o manejo das enxurradas. 

A cobertura de solo via plantio direto, com plantas vivas ou com resíduos de plantas, dissipa somente a energia de impacto das gotas de chuva, não sendo eficaz para reduzir a energia de arraste provocada pelo excesso de água. 

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