Setor reage ao Plano Safra 2025/26: “não atende a todas as demandas do produtor”

Clarisse Sousa – O governo federal lançou, nesta terça-feira (1º), o Plano Safra 2025/2026, com a liberação de R$ 516,2 bilhões para a agricultura empresarial. O valor representa um acréscimo de R$ 8 bilhões em relação à safra anterior e será destinado a médios e grandes produtores, em operações de custeio, comercialização e investimento. Para entidades do setor, no entanto, o montante não será suficiente para atender às demandas dos produtores. Além disso, preocupam as taxas de juros mais altas e a ausência de menção ao seguro rural no lançamento do novo plano.

Para o presidente do Sistema Famato, Vilmondes Tomain, o valor anunciado ainda não atende totalmente as necessidades do setor. “É um recurso importante, mas que precisa ser analisado com cautela, principalmente por causa das taxas de juros praticadas. O produtor rural tem convivido com custos de produção elevados, queda no preço das commodities e dificuldades para acessar crédito”, avalia.

No novo plano, as taxas de juros podem variar de 8,5% a 14% ao ano, consideradas elevadas diante do cenário de custos altos e margens apertadas para o produtor rural.

Diante de dificuldades recorrentes, como o congelamento de recursos, a Famato ressalta que, além do anúncio dos valores, é fundamental que os recursos do Plano Safra sejam realmente disponibilizados e aplicados em sua totalidade.

Para o presidente da Frente Parlamentar da Agropecuária (FPA), deputado Pedro Lupion (PP-PR), o Plano Safra 2025/26 lançado pelo governo federal, “é mais uma peça de marketing do que uma política efetiva”. Segundo ele, o valor anunciado de R$ 516,2 bilhões para a agricultura empresarial contém “distorções e omissões” que comprometem a transparência do programa e impõem custos sem precedentes ao setor produtivo.

“O governo anuncia um plano de R$ 516 bilhões, mas só tem controle real sobre 22% disso. O restante é dinheiro dos bancos, a juros de mercado, muitas vezes acima de 2% ao mês. Não se pode vender isso como apoio estatal ao agro”, disse Lupion.

De acordo com o deputado, no ano passado o governo havia prometido R$ 138 bilhões em recursos com juros controlados, mas contingenciamentos reduziram a execução a R$ 92,8 bilhões. Neste ano, o governo anunciou R$ 113,8 bilhões nessa mesma categoria, o que representa aumento frente ao que foi efetivamente executado, mas queda em relação ao valor prometido no ano anterior.

“Quando comparo o que foi anunciado em 2023 com o que está sendo prometido agora, houve recuo. Estão vendendo crescimento onde há perda de ambição”, afirmou.

Lupion também criticou o volume de recursos da União destinados diretamente à agricultura empresarial. Dos R$ 13,5 bilhões previstos para equalização de juros na safra 2025/26, R$ 9,5 bilhões serão para a agricultura familiar e somente R$ 3,9 bilhões para a empresarial.

“Esse é o gasto real do governo com o agro empresarial. Todo o resto é dinheiro de banco, do mercado, emprestado a taxas muitas vezes impagáveis. No fim, o governo gasta pouco e transfere o custo ao produtor”, alertou.

Seguro rural 

Outro ponto de preocupação é o seguro rural. De acordo com Lupion, sua ausência no Plano Safra 2025/26 compromete a segurança da produção. “O governo sequer mencionou o seguro rural no lançamento do plano. É como se fosse algo secundário. Mas sem seguro, o produtor fica exposto e o país termina discutindo dívidas e renegociações”, apontou.

Em nota, o Sistema FAEP manifestou preocupação em relação aos juros mais altos, que podem dificultar ou até inviabilizar o acesso aos recursos, e também alertou sobre o seguro rural.

“Mais uma vez, o setor produtivo e as entidades que representam os produtores rurais não foram ouvidas. A inviabilidade deste canal por parte do governo federal tem dificultado o planejamento da agropecuária, fazendo com que nossos agricultores e pecuaristas convivam com falta de recursos, juros altos que elevam ainda mais o custo de produção e incertezas em diversos pontos, como o seguro rural”, afirma o presidente interino do Sistema FAEP, Ágide Eduardo Meneguette. “Esse Plano Safra é mais uma prova de como o governo federal não está olhando para o setor agropecuário como deve e merece”, complementa.

Ainda, o Sistema FAEP alerta que os recursos para equalização (destinados a cobrir a diferença entre os juros praticados no mercado e a taxa ofertada nas linhas de financiamento do governo) podem ser insuficientes.

“Na temporada passada, por exemplo, os recursos para equalização das taxas de juros acabaram já no início do ano. Com isso, as entidades financeiras, como bancos e corretoras, não conseguiam oferecer os financiamentos nas taxas de juros previstas no Plano Safra. Na prática, os financiamentos não saíram”, aponta Meneguette. “Ou seja, sem recursos suficientes para a equalização, corre o risco de os produtores rurais não conseguirem acessar as linhas de crédito, mesmo antes do fim da temporada”, reforça.

 

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